Devo de ser como uma cebola, pois à medida que me vou dando a conhecer, camada após camadas, um ardume paira sob os olhos, e lágrimas atrás de lágrimas surgem, que nem formigas em fila indiana, num dia árduo de trabalho.
Ultimamente no meu peito tenho sentido um aperto, julgava que fosse por causa de fugas de gás contidas dentro de mim, mas talvez seja apenas correntes de ar, oriundas de portas abertas e janelas escancaradas, de telhados de vidro despedaçados sob um sopro de ar quente; talvez por causa de um beijo não dado, deixado ao relento, em ruas em que o relógio insistia ver a luz do dia, mas a multidão vestida para a noite persistia conviver entre ruas e vielas, e eu sem esse beijo deixei-me ir.
Chorei, e agora choro sem lágrimas. Mas já não me sinto como uma cebola…
Nesta vida o que importa é relembrar os bons momentos, e por que mais que me doa a alma, por mais que o meu coração se sinta envolto em arame farpado, em cada batidela, um pulsar de sangue solta-se, e dele, a adrenalina e a tristeza percorrem o meu corpo como se ele fosse uma pista de corrida. Não há pressa, não deveria de haver mas eu a sinto, como um abraço que ficou por dar.
O que nos vale nesta vida, são os bons momentos, âncoras presas aos nossos barcos, não nos deixando navegar em marés revoltas, porque se perdidos na vida por vezes estamos, nada nos vale ficarmos perdidos uns nos outros.
Um abraço poderá ser um porto de abrigo e aí as âncoras já não serão precisas. Este meu barco tem uma, mas por vezes esqueço-me dela…
A ambivalência destes meus sentimentos é complexa e confusa e quando deixo de lado o negativismo atroz que me fere, sorrio, e um calor aquece-me por dentro. Basta relembrar “Jesus Cristo” quando soltou seus cabelos e parecia uma nova pessoa, a princesa de faces rosadas com “brilhantes” a forrarem seus dentes, a mixórdia de palavras que muitas das vezes não entendia do Arménio Germânico, o sorriso, o olhar e a bela aura da “Sally” ou o toque suave dos dedos e lábios do Glass Hunter.
Bem sei que não irão entender metade do que aqui escrevi, mas este Oceano foi criado para isto, para poder deitar para fora o que não digo em voz alta fazendo-me sentir mais leve, porque esta vida não é fácil, eu não sou fácil. Por vezes estilhaço-me porque não sou de ferro, mas porque por vezes sou de cristal. Estou mais leve? Nem por isso, sinto-me um balão de ar com pedrinhas de chumbo encafuadas dentro dele.
Vou ali varrer os cacos e logo que possível estarei de volta.
…It could be a long long way













