Não tive oportunidade de me despedir do meu Shape, queria o ter feito, tinha algumas palavras para lhe dizer ao pé do ouvido, como fiz com a Chantal. Nunca pensei que não iria ter oportunidade de o fazer. Não sei o que lhe diria, e agora tenho as palavras entaladas na garganta. Ele partiu no passado dia 22, talvez tenha sido o destino a ditar o desfecho da nossa relação. É isso o que mais me está a custar ultrapassar.
Mas este post é sobre o Shape…por ironia do destino, o Shape e a Chantal foram nos entregues no dia dos meus anos, em Agosto de 2000, no colo de uma mulher e de um homem, saídos de uma carrinha e o Shape foi levado lá de casa nos braços de alguém, na carrinha do veterinário. Ohhh vida por vezes és…
A 10 de Agosto de 2000, fomos jantar fora, o Shape e a Chantal tiveram presença no meu jantar de anos no restaurante, estivemos sempre a olhar por eles, estavam debaixo da mesa, com as trelas enroladas nos pés das cadeiras, como se fossem cobras a treparem em troncos de árvores. Tenho boas recordações desse dia, de estar com a minha irmã à janela e de os ver a serem entregues aos meus pais, de ver serradura espalhada no pêlo (custa-me não falar no plural, o Shape estará sempre ligado à Chantal), mas uma das que mais me marcou foi chegarmos ao restaurante, sair do carro, sentir nos pés o chão feito de pedrinhas, ouvir o som que delas sussurrava, e olhar para além da cerca que estava mesmo ao lado do restaurante, um prado verdejante, um dia a ficar sem luz, com o sol pintado no horizonte com tons a serem tingidos de laranja e a noite prestes a surgir. Se a felicidade é feita de pequenos momentos, eu naquele era muito feliz. Quando estávamos para ir embora sentei-me num dos degraus do restaurante, peguei no Shape pelas patinhas da frente, olhei-o olhos nos olhos, vi o focinho castiço que tinha e disse-lhe umas palavras. Sei que a memória é tramada, queria tanto me lembrar do que lhe disse, mas não consigo, apenas tenho a vaga memória dos gestos, cadências sentimentais que me ferem e me deixam com a dor feita em águas salgadas, pequenos pingos de lágrimas.
Nessa altura (2000) quando fomos até Bruxelas, o Shape e a Chantal não passaram despercebidos, quando estávamos a almoçar numa esplanada 2 raparigas chinesas (talvez fossem coreanas ou japonesas…) quando os viram pediram para tirar fotografias, aproveitei para tirar uma fotografia com uma delas.
O Shape sempre teve um porte de leão, com um ar de gingão, todo pimpão com o péssimo defeito de andar a roçar o focinho em tudo o que era pernas. Quantas vezes reclamávamos por estar sempre a rondar as nossas como se fossem um “coça focinhos”…calças brancas ou com cores claras era sinónimo de ficaram manchadas, na altura até pensei que do pêlo deles saía tinta…
O Shape detestava que fizessem dele “o meu pequeno pónei”, era uma espécie de jogo, tentava me sentar nele e por sua vez ele tentava esquivar-se ao meu peso. Perdi a conta às vezes que lhe disse “Hey cavalinho” mas com o passar dos anos deixei de fazer isso. Brincava muito com ele, o Shape era a minha "vitima"...
Sempre que levávamos ração nova para eles era uma euforia canina, enquanto não colocássemos a paparoca nas tigelas, o Shape e a Chantal não descansavam, e foram inúmeras as vezes em que uma briga despoletava entre a fome e a gula que a dupla canina tinha.
O Shape sempre teve muito pelo, escovar dava uma trabalheira, e reconheço que deixei de o fazer nos últimos tempos, apenas porque o toque da escova o fazia ladrar, mas no passado domingo peguei nela e suavemente escovei-lhe a parte da cabeça, ainda o vi abanar timidamente a cauda, senti que ele estava a gostar do meu mimo, e fui mais longe, peguei numa tesoura e cortei o pêlo que consegui numa das patas, tinha o pêlo todo empastado de água e xixi. Esse foi o meu derradeiro mimo. Uma das coisas que ele fazia quando era escovado era esticar-se, como tivesse receio que eu não o escovasse todo, era uma espécie de aviso “ei ei tens mais pelo para escovar”. Sei que não devo de pensar assim mas outra coisa que ficou por fazer era dar-lhe um banho, estava mais que prometido mas não fomos a tempo.
O Shape tinha uma particularidade, sempre que o meu pai lhe dava batatas fritas (eu sei que não se deve dar esse tipo de coisas aos animais, falem com o meu pai!) ele andava pela casa a passear, e vinha sempre pedir mais umas quantas, e até as comer, mais parecia que estava numa peregrinação a pé até Fátima. O Shape acabava por ter um grupo de batatas fritas na boca, mais para desafiar a Chantal do que outra coisa, e tinha sempre aquele porte majestoso que dizia “estou aqui, ora vejam”. Ele nunca passou despercebido, mesmo já nos seus últimos dias, aposto que os vizinhos ouviram o constante ladrar, não sei se era apenas a pedir água e comida, ou também por sentir dores, ou porque queria companhia, mas já nem em pé consegui estar.
O Shape e a Chantal morreram virgens, ele trapalhão como era bem que tentou, mas a Chantal sempre foi muito recatada, tipo donzela dos tempos antigos. Espero que no céu tenham agora tudo do bom e do melhor, mas brincadeiras à parte, acredito que os animais têm alma, preciso de acreditar nisso…
Com a vinda do Prozac lá para casa a dinâmica se alterou, primeiro o Shape rejeitou o Prozac mas com o passar do tempo ficaram muito amigos, chegando ao ponto do Shape dar pequenas mordidelas ao Prozac que este gostava muito. Por vezes num gesto de sedução o Prozac ficava à espera que ele o fosse morder.
Depois com partida da Chantal e com a vinda da gargamela Zoe, a dinâmica voltou a se alterar, mas o Shape já estava muito debilitado, já não correspondia às brincadeiras dos outros. Mesmo assim as brigas entre o Shape e a Zoe foram algumas, ela era uma ciumenta, e ainda é. Com o passar dos meses chegou ao ponto de ter que ser arrastado pelo meu pai por causa do sol, ou ter que o levantar para poder comer e beber. Dei por mim depois da sua partida numa das janelas a imaginar que ele estava no pátio. Há imagens difíceis de se esquecer, sons que por mais incomodativos que fossem, por vezes parece que ouço o eco deles.
Agora já não temos o constante ladrar, a casa está mais silenciosa, sei que os momentos se vivem, que as memórias ficam, que a dor suaviza e que devemos relembrar sempre os bons momentos, sei que ele os teve, mas não teve o que lhe tinha para lhe dar, as minhas últimas palavras, o meu último passar das mãos pelo pêlo. Teve na passada segunda-feira um “Xau Shape” quando fui para o trabalho, virou a cabeça e olhou para mim, sei que me viu, só que eu na altura não sabia que seria essa última vez que o iria ver. Quando soube que já tinha sido levado para ser abatido, foi como me tivessem cortado o meu para-quedas, fiquei estatelado no chão e não aguentei a dor, chorei ao telefone, chorei a caminho da casa de banho e esqueci-me que tinha colegas ao pé de mim. O que ninguém sabe é que minutos antes de ligar para casa, senti o cheiro do Shape. Foi o click. Ele já tinha partido.
Shape, Shapão, Lambão…cognomes para ele se fosse um Rei, que agora faz companhia à Princesa Chantal, e ao meu anjo de olho azul, deixando-nos todos lá em casa nostálgicos e tristes. Ele foi um amigo, mas acima de tudo foi parte integrante da minha família, nunca será esquecido e a minha família está mais pobre. 15 anos passaram-se tão depressa que não tenho mais palavras para traduzir o que a dor me tem dito ao longo deste dias. Sei que ele gostou de fazer parte da árvore da minha vida, perdi outro galho. E já tenho tantas saudades do meu Shape.
O Shape nasceu a 01/06/00 e partiu a 22/06/15.
To see a world in a grain of sand
and a heaven in a wild flower;
hold infinity in the palm of your hand
and eternity in an hour
(de William Blake)
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Um ciclo fechou-se, 14 anos de convivência com a dupla canina (Shape & Chantal) e 15 com o Shape, e porque dificilmente irei voltar a falar deles aqui, presto uma homenagem à dupla que todos os dias deixa em mim um sentimento muito doce e muito amargo: a saudade por os ter tido comigo durante muito tempo e o vazio por já não os ter.
E esta é uma das fotos que guardo com muito carinho.