
Este vai ser o meu último post sobre o livro que acabei hoje "A Rapariga dos Pés de Vidro". É sem dúvida um livro que me diz muito, a personagem masculina (Midas) tem algo que também eu tenho, e porque eu gosto de histórias de amor com rumos inesperados, esta é sem dúvida uma delas. Na parte final parecia que o tempo tinha parado, pois fiquei de tal forma embebecido pelas palavras que estava a ler, que o que senti foi o mesmo que um beijo dado e recebido sofregamente. Senti que os poros na minha pele pareciam pequenas formigas que tinha acordado para um dia cheio de trabalho. Senti a pele a encolher, senti-me com pouco ar, só não chorei porque até hoje nunca o fiz por causa de um livro. Podem achar uma estupidez do tamanho do cabo das tormentas, mas o livro é deliciosamente encantador, e para mim ultrapassa sem dúvida a história do Romeu e Julieta e outras do género. Estou prestes a escrever coisas que não devo...por isso deixo aqui a parte do beijo que senti ao ler a parte final do livro (e não é o final...)
"Midas tentou remar como ela tinha feito. O barco girou. Os remos atingiram inutilmente a água e lançaram pingos de água através do ar.
- Pára - implorou.
Ida levantou a saia. Meia polegada de vidro imaculado cobria-lhe as coxas. Abaixo dela, retesavam-se camadas de músculo ferido. Midas largou os remos e eles regressaram às suas posições iniciais com um raspar na madeira.
Ida agarrou-se a ele com tanta força que as unhas se cravaram na pele. Juntos observavam silenciosamente os joelhos dela. As articulações estavam bloqueadas.
Ela abriu o casaco e levantou a camisola de lã. À medida que observavam,a superfície do seu ventre ia perdendo os seus pormenores de sinais e folículos. A carne foi retrocedendo, deixando para trás um ecrã plano. Os ligamentos púrpura no interior desapareceram como terra disseminada por uma escova. A luz brilhava no seu umbigo de vidro, realçando a massa em silhueta dos seus intestinos a mover-se sob as camadas de gordura a endurecer.
- Vamos chegar à costa - resmungou Midas, pegando novamente nos remos.
Ida tocou-lhe nos braços com as mãos e segurou-se com força. Quando ele percebeu o que ela pretendia fazer, Ida estava a aproximar seu rosto do dele numa tentativa de os unir. Beijaram-se com os olhos fixos um no outro. Midas sentiu os cotovelos e antebraços dela a contraírem-se. O aperto das suas mãos afrouxou. O calor das costelas de Ida contra as suas mãos ia arrefecendo e a pele macia ficou inerte.
Midas correu as mãos pelos cabelos dela. Segurou-lhe as faces.
Os lábios dela aprisionaram os dele e com a língua contou-lhe os dentes. Das pálpebras rolaram-lhe lágrimas que tombaram sobre o rosto dele.
O aperto nos braços dele afrouxou e os seus lábios eram um coágulo sem cor. Ida lançou a sua cabeça contra a dele. O cristalino dos olhos gelificou.
Os pontos negros das suas pupilas contraíram-se até ficarem do tamanho da piscadela de um alfinete. Fechados e perdidos para sempre.
Por um momento a cabeça ela era uma rosa coberta de gelo, depois ficou vazia.
Ele começou a tremer e a chorar, «Socorro!», embora não adiantasse nada. Midas ainda se encontrava no seu abraço petrificado. Quando finalmente retirou as mãos do cabelo dela, incapaz de lhe olhar para o rosto, ouviu algo a quebrar-se. As fibras de vidro que tinham sido os seus cabelos agarravam-se aos seus dedos e provocaram um patrão entrecruzado de lacerações na sua pele. Os braços dela ainda lhe seguravam os ombros. Teria de se contorcer para se libertar."
A história continua mais um pouco, no entanto algumas páginas antes, uma passagem vai ao encontro de algo que eu acredito:
"Sentira uma colisão com ele e soubera isto durante toda a sua vida: colidir nem que fosse apenas por um momento com outra pessoa a tal velocidade que se fundisse com ela."
Quero uma colisão! Está tudo dito.