POST
DE 2009 reeditado (Sugestão do Blog Six Degrees of Separation)
"Primeiro a tua língua molha o meu coração,
num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa,
entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente.
Abres-me agora os meus pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios
Correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado do exercito de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas das palavras,
estremecendo no suor dos olhos abraçados,
fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor."
Este
poema da Inês Pedrosa tem a sua razão de ser. Há algumas semanas atrás, estava
eu de regresso ao trabalho, era quase meio-dia. Digamos que a vida está sempre a
nos surpreender...não tenho o hábito de falar com Deus, mas quando falo faço
questão de lhe perguntar o que realmente me está na alma. E foi o caso. E até
pode ser uma contradição esse meu tipo de conversa para algumas pessoas, mas
confesso, perco algum do meu tempo, segundos infinitos a tentar encontrar
respostas para perguntas que a mim não são descabidas. E penso que para Ele
também não o são.
Com
as mãos coladas ao volante perguntei-lhe porque porque razão é que eu estando
entupido de amor não consigo ver-me livre dele, o amor que sinto, e me entope
dia após dia e faço de conta que não se passa nada.
Passados
uns segundos, ouvia na rádio Antena 3 (a rádio da minha eleição) uma das locutoras
a declamar (e bem) o poema da Inês Pedrosa "Sexo Oral" (não conhecia)
e creio que a resposta me foi dada. O amor tem muito que se lhe diga , eu
sinto-o, mas não consigo deformá-lo nas formas que eu quero. Há dias que leio
vezes sem esse poema, como se fosse uma das música da banda sonora do momento.
Mas o momento que vivo pouco ou nada tem a ver com esse tipo de sentimento, em
que a oralidade crava as garras no sexo e faz dele um transporte para explodir
o que se sente. Sinto muita coisa e não há nada que o faça real. Um sonho, um
pesadelo, a vida de outra pessoa que não a minha.
(Deixo aqui não o video que deixei no post original, pois esta música está sempre presente quando penso em beijos, e faz
mais sentido agora colocar este, pois com a reedição cortei algumas palavras.
Entupido de amor já não estou, mas guardei um pouco, não quero ficar seco
& azedo.)