domingo, fevereiro 16, 2014

Uma Cidade Fantasma

Quem não vive nos grandes centros urbanos acaba sempre por ter uma visão do quotidiano diferente da dos outros. Hoje eu digo, vivo numa cidade fantasma, com ruas desertas, montras a ganharem pó, outras com vidros partidos, e aos poucos e poucos as pessoas deixam de se verem umas às outras. É normal, faz sentido nos dias de hoje esse tipo de ausência de vida em certas zonas...

Pergunto-me quanto tempo faltará para me tornar em mais um dos fantasmas que por aqui andam...

Faço como os outros, percorro ruas desertas, faço levantar o pó que se infiltra por tudo o que é sitio e vejo nos vidros o meu reflexo ao mesmo tempo que aos poucos e poucos deixo de ver quem fazia parte do meu quotadiano.

Sim, vivo numa cidade fantasma e deixarei de percorrer mais uma rua nesta cidade em que vivo e nada me diz. 

Ontem tive uma daquelas despedidas que marcam uma pessoa. Foram muitos anos envoltos em rotinas, e em poucos dias o destino em duas ocasiões bem distintas me disse "a vida é feita de mudanças".

Pois que seja, mas honestamente confesso: estou cansado.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A Rapariga que lê o final de um livro antes de o começar


Poderia começar com “É uma vez” mas não o faço, pois não vou contar nenhuma história de encantar. No entanto a da rapariga que lê o final de um livro antes de o começar, encaixaria na perfeição naquelas histórias onde uma princesa se vê confrontada com pequenos obstáculos e tem que arregaçar as mangas do seu longo e pesado vestido e se tornar numa daquelas guerreiras que leva tudo à frente. 

Cada um de nós vê a vida da forma que mais lhe convém. Estou naqueles dias em que a vida não é mais que um simples livro. Não interessa a capa nem o índice. Cada página impõe-me uma regra, a página tem que ser virada. Neste momento faço-o da forma que menos me custa, escrevendo, até porque hoje disse em tom de brincadeira que era um minion transparente porque a tristeza que sinto não tinha cor. Mesmo com o passar das horas não há cor que me faça ter uma sombra menos negra. O tempo ajudará a dar-lhe umas pinceladas de uma claridade que é raro encontrar.

Há histórias que são contadas em vários capítulos, outras são apenas contos que facilmente se lêem, e há os poemas que com os subterfúgios que as letras concedem, deixam aos seus leitores fragmentos duma alma. A história que aqui deixo, é daquelas que me fez abrir o meu coração quando o destino assim pediu, que me fez ver numa pessoa alguém que além do respeito, tenho um carinho que a amizade assim o permitiu. 

Daqui a pouco irei fechar os meus olhos para deixar partir mais um dia e quando os abrir desejarei que a rapariga que lê o final de um livro antes de o começar nunca leia o da história que aqui deixo…

A rapariga que lê o final de um livro antes de o começar, bateu à minha porta com três suaves pancadas “truz truz truz”…

domingo, fevereiro 02, 2014

Uma ilha?

Estas últimas 24 horas estão encharcadas duma fluidez que quando penso nela deixa-me com a cabeça na lua e os pés bem longe da terra. Até diria que o destino deu-se ao trabalho de mais uma vez me mostrar que por mais curvas que a vida possa ser escrita, há sempre um atalho que aparece vindo do nada, e me diz que a próxima saída é já a seguir...pois bem, mesmo sem GPS ignorei as indicações e fui fiel ao que sinto.  Tento sempre o ser.

Não sou analista, nem de dados, nem da vida dos outros, pois já me basta a minha. Tento sempre me colocar no lugar dos outros, pois essa é a única maneira sensata e minimamente inteligente para conseguir despir a pele que me veste e conseguir ao menos ver para além de...não é fácil, nem sempre consigo.

Nestas últimas 24 horas disse para com os meus botões (confesso...nem sei se tinha botões comigo, mas os imaginários estão sempre...) que não queria ter que viver um momento que saberia que me ia deixar sem para-quedas. Dito e feito, não tive direito a uma colisão e muito menos um ferido. Mas a senti, e o vi. Uma coisa sei, partilho aqui sem dizer mais o que estas palavras o permitem, pois há momentos que nos marcam, olhares que dizem mais que certas palavras. 

O desconforto que senti, certamente não é nada comparado ao conforto que conseguir dar com um simples gesto.

"And no man is an island, oh this i know
But can't you see, oh?
Maybe you were the ocean, when i was just a stone"
 
Ben Howard numa das suas músicas "Black Flies" diz que nenhum Homem é uma ilha...Por vezes me sinto como uma pedra enquanto penso que os outros são um oceano, mas me esqueço que por vezes, perante os olhos alheios também sou um oceano, pois o que mais há nesta vida são pedras, e os oceanos são apenas 5.
 
 

sexta-feira, janeiro 31, 2014

Uma Sala só Para Mim

Porque o mês de Janeiro foi mesmo um mês desprezível, e para comemorar o seu fim, no dia de hoje tentei descansar (dentro do possível) pois a minha cabeça não pára. É uma montanha russa, mesmo sem passageiros. 

Resolvi ir ao cinema e tive uma tarde de luxo, tive uma sala de cinema só para mim. Paguei 5,50 € e como companhia tive o filme "American Hustler". Não tinha nenhuma expectativa em relação ao filme. Sabia que o elenco era muito bom, já a história sobre uma golpada americana deixava-me de pé atrás. Depois tinha os anos 70. 

O filme se passa em 1978, ano em que nasci. No final gostei muito do filme, e para mais, tem daqueles momentos únicos que só o cinema nos pode oferecer, desde um beijo, uma dança ao som de "I Feel Love" e claro uma cena protagonizada pela Jennifer Lawrence, ela com uma luvas amarelas de borracha ao som de "Live and Let Die". 


O filme foi bom, mas o que mais mais gostei foi ter a sala só para mim!


 

domingo, janeiro 26, 2014

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus.

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.

(Poema "Escuto" de Sophia de Mello Breyner Andresen)

sábado, janeiro 25, 2014

Detestável Mês de Janeiro

Janeiro...mês que nunca gostei. 

À medida que o fim de ano de aproxima, fico por vezes a pensar neste mês. Não sei bem porque razão nunca gostei dele, talvez o meu subconsciente tenha respostas que não me queira dar.

Já não vinha a este oceano há algum tempo, vim há uns dias, por tristes motivos, e venho outra vez, não por melhores motivos. Está mais que provado, Janeiro é mesmo um mês detestável.

Neste últimos dias recebi palavras de carinho que guardo dentro de mim, um tesouro muito precioso, mas também senti um silêncio muito azedo, que me fez sentir um certo tipo de azia. Já a descartei, aliás este mês tem sido uma roda-viva...

Bem que podia planear uma viagem, talvez ao Egipto, ou talvez o melhor é ficar calado, ao estilo de um famoso macaco. Esse não fala, mas um outro não via e também há o que não ouve. Mas como ser humano que sou, não sou de ferro. Se contasse o que via, se falasse o que ouço e coscuvilhasse o que me contam não era a pessoa que sou hoje. 

Não querendo ser egocêntrico, nem narcisista, porque razão é que o universo me continua a dar pistas sobre o que os outros pensam de mim. Está mais que provado, não gostam de mim. Não entendo bem as razões, nem as quero entender. O problema não é meu. 

Tenho dias em que o melhor que faço é esperar que venha o carnaval. Vou pegar numas fitas de gaze, envolverei-me nelas, serei uma múmia. Mas verdade seja dita, posso o ser, mas continuo a ter dedos para escrever, ouvidos para ouvir e boca para falar.
 
Janeiro pode estar a ser um mês detestável mas faltando ainda alguns dias para o ver pelas costas, algumas coisas aprendi: sou boa pessoa. 1-0 ganho eu. O resto que se lixe.

sábado, janeiro 18, 2014

Adeus Chantal


Este texto é uma dedicatória à Chantal. Viveu comigo e com da minha família mais de 13 anos.

Não há palavras capazes de transmitir o que sinto. Vou tentar deixar neste oceano, uma pequena gota de água, uma homenagem á Chantal, uma princesa canina que a partir do momento que fez parte da minha família foi sempre especial.

No dia 10 de Agosto de 2000 demos a boa vinda a ela e ao seu companheiro de uma vida (O Shape). Esse dia também era especial, fazia eu anos. A Chantal e o Shape nunca foram uma prenda de anos, digamos que o destino assim o quis. Essa é uma de muitas boas memórias que tenho dessa dupla canina. A razão de os termos na família também tem uma história por detrás, mas essa deixo no baú da minha memória.

São tantos os momentos que me fazem sorrir quando penso no mês de Agosto de 2000. Se disser que no dia dos meus anos tanto a Chantal como o Shape foram parte integrante do meu jantar de anos, acreditam? Só na Bélgica isso foi possível, aliás a dupla canina era belga. Foi um celebrar de anos muito diferente, especial…

Lembro-me que a Chantal tinha medo de sair à rua. Mal saía do elevador que dava acesso à rua, era como se tivesse perra e enferrujada como uma mola. As patas da frente ficavam tesas que nem um carapau e só mesmo puxando-a com a trela é que conseguíamos ir passear. 

Numa dessas tardes de Agosto fomos dar uma volta até ao parque, que ficava bem pertinho do apartamento onde os meus pais viviam. A alegria da dupla canina era notória, qual é o animal não gosta de liberdade? Até parece que foi ontem que os levamos a passear e sob um belo chorão (um salgueiro) vi um jogo de luz e sombra a fazer-nos companhia. 

Durante os dias que estivemos na Bélgica, tivemos que fazer um jogo do gato e do rato. Não falo de mim e da Chantal, mas sim da minha família e do senhorio do apartamento onde os meus pais vivam. Não se podia ter animais no apartamento, e no dia em que ele lá foi, foi uma correria. Eu, a minha irmã e a minha avó pegamos na Chantal e no Shape e saímos do apartamento para não arranjarmos problemas com o “Monsieur”. O dia estava cinzento e chuvoso. Acabamos os 5 enfiados numa paragem de autocarro à espera que o tempo melhorasse para podermos voltar para casa, pois a chuva insistia em não parar. São momentos que ficam gravados na memória. Falta é a fotografia de nós os 5 naquela paragem de autocarro…

Sendo a Chantal uma princesa, não é normal na vida de uma princesa existir uma história de uma fuga? Pois bem, a Chantal teve a sua em Bruxelas, fugiu enquanto almoçávamos. Talvez quisesse ir ver a “Grand-Place” mas o meu pai ao estilo de futebolista que foi, lançou-se atrás dela e conseguiu a alcançar. Essa foi a única fuga da Princesa Chantal. Num fechar de olhos a bola de pêlo lançou-se numa correria entre belgas e turistas. Na altura não teve piada nenhuma…

Tanto a Chantal com o Shape fizeram uma longa viagem: da Bélgica passaram por França, Espanha e por fim chegaram ao seu novo lar, Portugal. Nem os comprimidos que o veterinário belga nos deu, os acalmou. Essa viagem também é uma pequena lembrança que aconchega o que sinto. Sinto uma dor que não tem palavras. As que aqui deixo, são apenas a sombra que deixo sair de dentro do meu coração, transformada nestas palavras.

Eu dizia na brincadeira que a Chantal era uma cadela independente, nunca quis ter filhotes, sempre foi “senhora” do seu nariz, muito recatada e inteligente, pois foram inúmeras as vezes quando lhe dizia “Chantal dá a patinha” ela dava, num movimento pomposo e delicado. Nós últimos tempos já não o fazia, talvez porque estivesse já surda, ou porque o simples movimento lhe fazia sentir dores.

No verão pedia para ir para a varanda para estar no seu canto. Não faço a mínima ideia porque razão ela gostava de lá estar, talvez porque conseguia ter uma ampla vista sob o que lhe rodeava, ou talvez porque princesa que é princesa gosta de ter o seu palácio. 

Ao longo dos anos ganhou hábitos, desde deitar-se ao pés do meu pai enquanto comíamos, ficando à espera que do “céu” chovesse algum miminho ou colocar o seu focinho no nosso colo enquanto comíamos aperitivos ao ver filmes ou uma série. Não era esquisita, gostava de praticamente tudo…mas verdade seja dita, com o seu focinho e aqueles olhos era difícil dizer não. 

Um mimo que ela também gostava era de ser escovada, por vezes quando a chamava “Chantal anda escovar” ela não obedecia, talvez estivesse muito ocupada. Noutras vezes ela ia nas calmas. Parece estranho dizer isso, mas ela ao andar fazia um barulho muito peculiar, parecia que tinha nas patas uns sapatos. Talvez uns sapatos de cristal. Lembro-me na brincadeira dizer que ela tinha sapatos de “tacon”…clác clác clá e lá ia ela…

Quando o Prozac foi lá para casa, a Chantal não o queria ver à frente, fugia dele. Mas com o tempo a dupla canina passou a ser um trio. Foram poucas as vezes que os vi brincar, mas um hábito que ela tinha era se pôr no pátio a ladrar que nem doida. Era a forma que ela tinha para o chamar à atenção, queria brincar também com ele. Era ciumenta….E quando quando brincava parecia uma bola de pêlo saltitona.

No verão quando a Chantal via a espreguiçadeira no pátio não pensava duas vezes, saltava lá para cima, e ficava a torrar ao sol. O prazer que ela sentia devia de ser diferente, pois com tanto pêlo...

Outro hábito que a Chantal tinha era à noite deitar-se no sofá, e todas as noites tínhamos que colocar um cobertor para ela se poder deitar. Eu dizia que era o seu trono. Ao longo dos anos, com o peso da idade e com menos capacidades ela foi deixando esse hábito. Mas não pensem que o trono foi deixado ao abandono. O Prozac é um pequeno Rei, é capaz de ficar a olhar para o sofá à espera que alguém o coloque lá ou então ladra até que alguém o faça. Muitas vezes era o Prozac no trono e a Chantal deitada no chão sob o olhar atento do Pisco-Doce (o Prozac).

Porque a vida é feita de hábitos, por vezes dávamos com a Chantal deitada a meio das escadas que dão para o 1º andar, com o focinho numa das patas ou nas duas, e com o seu olhar meigo contemplava o que se passava com os restantes habitantes da casa. Era uma espécie de vigilante. 

Se as pessoas têm rotinas, os animais tenham as têm. Uma delas era quando comprávamos ração. Tanto ela com o Shape sabiam que tinham paparoca nova, e a briga entre eles surgia do nada, como se a comida fosse apenas para um. Por vezes lá tínhamos de os separar. Era uma confusão. Quantas vezes o que é incomodativo e o deixa de o ser, deixa no ar um tipo de nostalgia que magoa pela sua ausência?

Nestas últimas semanas a Chantal estava muito debilitada, não andava, praticamente não comia, ladrava para alguém a levar a beber água e ir á rua fazer as suas necessidades. O meu pai foi incansável nessas semanas, parecia um guerreiro a fazer tudo por tudo para lhe dar o conforto que ela merecia. Eu todos os dias, quando ia para o trabalho despedia-me dela, do Shape e do Prozac, mas as palavras que lhe dizia, pesavam-me na alma. 

Todos os dias quando saia de casa estava sempre com receio que um dos meus pais ligasse para o meu trabalho a pedir para ir para casa. Não deixei que esse dia acontecesse, algo me disse na passada terça-feira para ir ter com eles. Fui, e despedi-me da minha princesa.

Quando me despedi sussurrei-lhe na sua pequena xerifia “Adeus Princesa” (eu gosto de inventar palavras…essa era para as orelhas da Chantal e do Shape). Porque era normal os reis terem cognomes, não pude deixar de lhe dizer os que fizeram parte do rei reinado: Princesa Magalona, Mezeruca e Carriça (esse dado pela minha avó). Talvez me tenha esquecido de algum…E por muito que me tenha custado, também lhe disse "vais ter com o meu anjo de olho azul".

Só eu e os meus pais sabemos o quanto doeu aquelas horas. Passava das 22:00 quando o meu pai deu sinal que ela já tinha partido…

A Chantal nasceu a 01/06/00, fez parte da minha família de 10/08/00 a 14/01/14. 

Adeus Princesa, foste amada, e estarás sempre nos nossos corações.

  

 


sábado, julho 27, 2013

Debaixo de um manto

Debaixo de um manto por vezes me escondo, noutras me mascaro. Não é que tenha medo, não que precise me refugiar, mas há momentos, lugares e fragmentos de vida que puxam por nós de tal forma que somos levados pela torrente da insanidade que assola os outros. Já não basta a nossa e temos que levar com a dos outros...por mais só que me sinta, há um manto que me aconchega nos seus braços, nos quais posso repousar, deixar-me levar pela infinidade do desconhecido.

Por muita luz que exista nesta realidade, tenho dias que não a sinto. 
Por mais agonia que sinta dentro de mim, sei que essa luz bem que tenta, mas não me ilumina, já que a escuridão ocupou o lugar dela.

(Este texto foi escrito com base no que sinto e nas palavras sábias de uma pessoa, uma amiga, que diz tanta coisa e talvez não saiba, mas a sua luz é tanta que por mais agonia e solidão que uma pessoa sinta, sabe que dela uma coisa pode sentir e ver, uma luz, como poucas que eu já vi...debaixo de um manto vivo, e mesmo assim vi essa luz...)

Estas são as suas palavras...

A vida é inglória enquanto vivida
Nada nos satisfaz
Nada nos fascina…

Ó triste sina!
Tão só e tão fria
Tão triste e melancólica
Numa tarde de agonia…

Agonia que se sente
Agonia que atrofia
Por muito que o sol brilhe
Nada se ilumina….

Deixo uma música para acompanhar este texto, só podia, mas todos queremos um novo mundo, no qual tudo é perfeito e os lunáticos ficam à porta à espera de uma oportunidade para golpearem o sistema, mas essa por mais golpes que leve, está preparada...julgamos nós...não está...

domingo, julho 21, 2013

O Desperdício

Não vou aqui falar de reciclagem, nem nada que tenha a ver com esse tema. É bem provável que amanhã quando reler estas palavras, vou pensar com os meus amigos botões "sinceramente" pois por vezes temos à nossa frente um daqueles pianos, a cor não interessa, podem ser brancos, pretos, podem ter o banquinho ou não, o que realmente é importante é ter à nossa disposição um conjunto de teclas. Talvez esteja a tocar nas mesmas de sempre, mas a razão tem caminhos insinuantes, que tanto seduzem como me prendem. 

Hoje sinto-me liberto. Há dias que me sinto escravo dos meus próprios pensamentos, com umas correntes à volta dos pulsos e uma mordaça bem juntinho da boca. Aí sou vitima de um outro tipo de desperdício, mas esse nem me aquece nem me arrefece. Bem que poderia ser gelatina, solidificar era um cabo para tormentas, e que venha o Adamastor porque também eu lhe teria uma lição para lhe dar.

O problema reside no desperdício que sei que me foge das mãos, dos meus sonhos, dos meus pensamentos. Ele evapora-se através do meu suor, foge das minhas intenções, infiltra-se onde não deve e corroí a razão que todos os dias me dá as verdades inquestionáveis que tanto preciso.

A minha juventude está a ser desperdiçada. Faço alguma coisa para a contrariar? Não, pois claro que não.

Se digo que a minha alma é velha, talvez o meu desperdício apenas esteja a seguir a linha que o destino com tanto cuidado e apreço costurou nos rebordos de quem eu sou. 

Como gostaria de desfazer o trabalho que tem sido feito. Se ficasse apenas em linhas, fios e sei lá mais o quê, não me importaria, alguém teria que pegar numa agulha e costurar-me de volta. Certamente não deixaria aqui uma das músicas que apunhalou a caixinha mágica que tenho dentro de mim...se a abro já não sei o que vai sair de lá.

 

sábado, julho 06, 2013

Fios

Por mais estranho que possa parecer, senti que me estavam a cortar um fio, um dos dois que sentia dentro de mim. 

Com um, não sei o que virá, nem o que a próxima página me irá dar para ler. Receio que seja o fim do livro, ou talvez seja apenas mais um volume de uma enciclopédia que está a ser escrita com o passar do anos. Mas eles pesam, e pesam muito.

Se há pessoas que acreditam que há mensagens escritas no céu, eu estou nos dias que acredito que existem mensagens encriptadas, tatuadas na pele de desconhecidos, talhadas no sentimentalismo alheio ou na penumbra de sombras sem paradeiro. A mensagem que li hoje é daquelas que poderia revolucionar meio mundo, e falo do meu. Teria que viajar no tempo e voltar a ter 10 anos, talvez aí os 100% dos meus fios seriam usados de uma outra forma, e por mais tesouras que o destino tivesse, não deixaria que dos 99% passasse. 

Se os fios são o parasita de uma tesoura, estou feito. O corte irá ser dado e num ápice deixarei atrás de mim o fio desfiado à espera que alguém o apanhe, como se fosse um balão perdido no meio de algo que nem eu sei bem como definir. 

Se as minhas lágrimas (que não as deito para fora) fossem usadas, que fosse por um grande amor.