Este texto é uma dedicatória à Chantal. Viveu comigo e com da minha família mais de 13 anos.
Não há palavras capazes de transmitir o que sinto. Vou tentar deixar neste oceano, uma pequena gota de água, uma homenagem á Chantal, uma princesa canina que a partir do momento que fez parte da minha família foi sempre especial.
No dia 10 de Agosto de 2000 demos a boa vinda a ela e ao seu companheiro de uma vida (O Shape). Esse dia também era especial, fazia eu anos. A Chantal e o Shape nunca foram uma prenda de anos, digamos que o destino assim o quis. Essa é uma de muitas boas memórias que tenho dessa dupla canina. A razão de os termos na família também tem uma história por detrás, mas essa deixo no baú da minha memória.
São tantos os momentos que me fazem sorrir quando penso no mês de Agosto de 2000. Se disser que no dia dos meus anos tanto a Chantal como o Shape foram parte integrante do meu jantar de anos, acreditam? Só na Bélgica isso foi possível, aliás a dupla canina era belga. Foi um celebrar de anos muito diferente, especial…
Lembro-me que a Chantal tinha medo de sair à rua. Mal saía do elevador que dava acesso à rua, era como se tivesse perra e enferrujada como uma mola. As patas da frente ficavam tesas que nem um carapau e só mesmo puxando-a com a trela é que conseguíamos ir passear.
Numa dessas tardes de Agosto fomos dar uma volta até ao parque, que ficava bem pertinho do apartamento onde os meus pais viviam. A alegria da dupla canina era notória, qual é o animal não gosta de liberdade? Até parece que foi ontem que os levamos a passear e sob um belo chorão (um salgueiro) vi um jogo de luz e sombra a fazer-nos companhia.
Durante os dias que estivemos na Bélgica, tivemos que fazer um jogo do gato e do rato. Não falo de mim e da Chantal, mas sim da minha família e do senhorio do apartamento onde os meus pais vivam. Não se podia ter animais no apartamento, e no dia em que ele lá foi, foi uma correria. Eu, a minha irmã e a minha avó pegamos na Chantal e no Shape e saímos do apartamento para não arranjarmos problemas com o “Monsieur”. O dia estava cinzento e chuvoso. Acabamos os 5 enfiados numa paragem de autocarro à espera que o tempo melhorasse para podermos voltar para casa, pois a chuva insistia em não parar. São momentos que ficam gravados na memória. Falta é a fotografia de nós os 5 naquela paragem de autocarro…
Sendo a Chantal uma princesa, não é normal na vida de uma princesa existir uma história de uma fuga? Pois bem, a Chantal teve a sua em Bruxelas, fugiu enquanto almoçávamos. Talvez quisesse ir ver a “Grand-Place” mas o meu pai ao estilo de futebolista que foi, lançou-se atrás dela e conseguiu a alcançar. Essa foi a única fuga da Princesa Chantal. Num fechar de olhos a bola de pêlo lançou-se numa correria entre belgas e turistas. Na altura não teve piada nenhuma…
Tanto a Chantal com o Shape fizeram uma longa viagem: da Bélgica passaram por França, Espanha e por fim chegaram ao seu novo lar, Portugal. Nem os comprimidos que o veterinário belga nos deu, os acalmou. Essa viagem também é uma pequena lembrança que aconchega o que sinto. Sinto uma dor que não tem palavras. As que aqui deixo, são apenas a sombra que deixo sair de dentro do meu coração, transformada nestas palavras.
Eu dizia na brincadeira que a Chantal era uma cadela independente, nunca quis ter filhotes, sempre foi “senhora” do seu nariz, muito recatada e inteligente, pois foram inúmeras as vezes quando lhe dizia “Chantal dá a patinha” ela dava, num movimento pomposo e delicado. Nós últimos tempos já não o fazia, talvez porque estivesse já surda, ou porque o simples movimento lhe fazia sentir dores.
No verão pedia para ir para a varanda para estar no seu canto. Não faço a mínima ideia porque razão ela gostava de lá estar, talvez porque conseguia ter uma ampla vista sob o que lhe rodeava, ou talvez porque princesa que é princesa gosta de ter o seu palácio.
Ao longo dos anos ganhou hábitos, desde deitar-se ao pés do meu pai enquanto comíamos, ficando à espera que do “céu” chovesse algum miminho ou colocar o seu focinho no nosso colo enquanto comíamos aperitivos ao ver filmes ou uma série. Não era esquisita, gostava de praticamente tudo…mas verdade seja dita, com o seu focinho e aqueles olhos era difícil dizer não.
Um mimo que ela também gostava era de ser escovada, por vezes quando a chamava “Chantal anda escovar” ela não obedecia, talvez estivesse muito ocupada. Noutras vezes ela ia nas calmas. Parece estranho dizer isso, mas ela ao andar fazia um barulho muito peculiar, parecia que tinha nas patas uns sapatos. Talvez uns sapatos de cristal. Lembro-me na brincadeira dizer que ela tinha sapatos de “tacon”…clác clác clá e lá ia ela…
Quando o Prozac foi lá para casa, a Chantal não o queria ver à frente, fugia dele. Mas com o tempo a dupla canina passou a ser um trio. Foram poucas as vezes que os vi brincar, mas um hábito que ela tinha era se pôr no pátio a ladrar que nem doida. Era a forma que ela tinha para o chamar à atenção, queria brincar também com ele. Era ciumenta….E quando quando brincava parecia uma bola de pêlo saltitona.
No verão quando a Chantal via a espreguiçadeira no pátio não pensava duas vezes, saltava lá para cima, e ficava a torrar ao sol. O prazer que ela sentia devia de ser diferente, pois com tanto pêlo...
Outro hábito que a Chantal tinha era à noite deitar-se no sofá, e todas as noites tínhamos que colocar um cobertor para ela se poder deitar. Eu dizia que era o seu trono. Ao longo dos anos, com o peso da idade e com menos capacidades ela foi deixando esse hábito. Mas não pensem que o trono foi deixado ao abandono. O Prozac é um pequeno Rei, é capaz de ficar a olhar para o sofá à espera que alguém o coloque lá ou então ladra até que alguém o faça. Muitas vezes era o Prozac no trono e a Chantal deitada no chão sob o olhar atento do Pisco-Doce (o Prozac).
Porque a vida é feita de hábitos, por vezes dávamos com a Chantal deitada a meio das escadas que dão para o 1º andar, com o focinho numa das patas ou nas duas, e com o seu olhar meigo contemplava o que se passava com os restantes habitantes da casa. Era uma espécie de vigilante.
Se as pessoas têm rotinas, os animais tenham as têm. Uma delas era quando comprávamos ração. Tanto ela com o Shape sabiam que tinham paparoca nova, e a briga entre eles surgia do nada, como se a comida fosse apenas para um. Por vezes lá tínhamos de os separar. Era uma confusão. Quantas vezes o que é incomodativo e o deixa de o ser, deixa no ar um tipo de nostalgia que magoa pela sua ausência?
Nestas últimas semanas a Chantal estava muito debilitada, não andava, praticamente não comia, ladrava para alguém a levar a beber água e ir á rua fazer as suas necessidades. O meu pai foi incansável nessas semanas, parecia um guerreiro a fazer tudo por tudo para lhe dar o conforto que ela merecia. Eu todos os dias, quando ia para o trabalho despedia-me dela, do Shape e do Prozac, mas as palavras que lhe dizia, pesavam-me na alma.
Todos os dias quando saia de casa estava sempre com receio que um dos meus pais ligasse para o meu trabalho a pedir para ir para casa. Não deixei que esse dia acontecesse, algo me disse na passada terça-feira para ir ter com eles. Fui, e despedi-me da minha princesa.
Quando me despedi sussurrei-lhe na sua pequena xerifia “Adeus Princesa” (eu gosto de inventar palavras…essa era para as orelhas da Chantal e do Shape). Porque era normal os reis terem cognomes, não pude deixar de lhe dizer os que fizeram parte do rei reinado: Princesa Magalona, Mezeruca e Carriça (esse dado pela minha avó). Talvez me tenha esquecido de algum…E por muito que me tenha custado, também lhe disse "vais ter com o meu anjo de olho azul".
Só eu e os meus pais sabemos o quanto doeu aquelas horas. Passava das 22:00 quando o meu pai deu sinal que ela já tinha partido…
A Chantal nasceu a 01/06/00, fez parte da minha família de 10/08/00 a 14/01/14.
Adeus Princesa, foste amada, e estarás sempre nos nossos corações.