terça-feira, agosto 07, 2012

"As Coisas Que Te Caem Dos Olhos"


"As coisas que te caem dos olhos" do escritor italiano Gabriele Picco é daqueles livros em que nele há um cruzamentos de pequenas histórias, com personagens um pouco deslocadas da realidade, no entanto, é mesmo esse fator que o torna tão especial, pois é acompanhado por uma série de pequenas gotas (e não são as lágrimas) repletas de imaginação que o fazem ser um dos livros mais interessantes que já li nos últimos anos. O final é assombroso, porque exige de nós, leitores, uma capacidade de imaginar um mundo onde o real é misturado com os sonhos, sim pode ser essa a palavra...e há lá uma referência que achei piada, porque quem consegue ver a cauda de um sonho é um bom sinal. Era isso que eu queria para o dia dos meus anos :-)

Quando um livro deixa-me com vontade de deixar pequenos excertos aqui, neste espaço é sinal que o dia que levei para o ler valeu e muito :-)

Aqui vão elas...

"PLIM...PLIM...Lágrimas. Imaginem vê-las cair dos olhos, e que dentro está a vossa mãe com rosto de menina, acariciando os cabelos, ajeitando-os atrás de uma orelha. Imaginem que veem dentro delas os rostos e lugares da vossa vida...as montanhas, com os céus encostados, autoestradas e passagens desniveladas, e árvores que nadam na água salgada de pequenas lágrimas. E rebentam no chão, salpicando tudo à volta. Para não voltar mais. Tudo transborda dos diques dos olhos, e escapou.
Para sempre. Como a história que está para começar"

"Ennio aprendeu a ver na escuridão dos quartos ainda antes de saber ler bem em voz alta. A música da escuridão é o silêncio, melodia pura que toca o coração e as pupilas, tão grandes quanto sexos abertos à espera de ondas de luz. A música da escuridão é devastadora, com a voz de Beniamino: passa através das portas, bloqueia os ossos, perdem.se as mãos, os dedos caem como água no chão e então já não se pode agarrar a nada, apenas ser-se salvo pela mão desesperada da mãe, a mão do mundo, pião louco na escuridão do universo. Um segredo. Os segredos são feitos para ser desvendados, soltos, como a neve. Os segredos são as peles que se formam nos lábios gretados das pessoas, retirados com pequenas mordidelas, com cuidado para não sangrar."


domingo, julho 15, 2012

O Túnel

"Behind these two hills here there's a pool
And when I'm swimming
In through a tunnel, I shut my eyes"


Por vezes quando os meus olhos se fecham, como se fossem conchas a protegerem uma pérola, tudo poderia passar pelo remoinho de nós dos pensamentos, mas nos dias de hoje, os nós estão entrelaçados nas montanhas que dão sombra à luminosidade dos olhares alheios.

Num túnel eu bem poderia caminhar, devagar, devagarinho, sem esperanças de encontrar fosse o que fosse, mas o destino é incerto, e a vontade é muita.

Vou fechar os meus olhos e mergulhar no desconhecido.

Sei que por mais incertezas que a vida possa ter, uma delas está concretizada...


E as palavras não cabem no tamanho dos sentimentos que tenho pelo pequeno raio de sol que chegou e iluminou-me de uma forma tão cristalina. Agora só quero ver os reflexos desse raio no cristal...não há palavras...

sábado, julho 14, 2012

O Paparazzo e o Raio de Sol

Disseram-me que eu um paparazzo, eu diria que sim, mas um paparazzo especial, daqueles que não escolhe o momento nem o dia em que resolve começar a captar momentos preciosos e únicos na vida de uma pessoa.

Diria até que um pequeno e ténue rasgo dilacerou o meu coração, nele abriu mais uma porta e deixei entrar um frágil pequeno e mimoso raio de sol. Depois abri uma janela para o poder ver. Quero-o ver todos os dias, isso eu queria, e não há palavras para explicar o porquê e avisaram-me...fiz que não ouvi, mas agora entendo, porque os raios de sol acompanham a noite...

Os dias passam sem que o meus pensamentos fujam para a luminosidade que esse raios me dão, e por vezes nem sei bem porque razão por mais portas e janelas que estejam abertas eu não me contento com o que tenho.

Não há lugar para tristeza, não há motivos para a melancolia e muito menos para devaneios, eu se pudesse afastaria sempre que pudesse o vento das cortinas que estão bem perto da janela, só assim poderei ser um paparazzo e ele um raio do sol, não é meu mas é como se fosse.

(Este texto é dedicado a 3 pessoas)

domingo, julho 01, 2012

A pele que me veste

Nos dias em que me sinto perdido no meio da multidão (no meio do nada), tenho comigo a pele que me veste. É nela que sinto os fragmentos dos outros e sinto os meus, confio neles, como se a minha maior arma fosse o principo do fim de uma série de coisas, com o prazo prestes a atingir a meta.

A pele que me veste é um casulo, uma vestimenta insuportável de a sentir. A carne reclama, os ossos choram de dor e a alma tem dias que já nem me fala. Se rodopio porque penso que estou num carrosel, se me sinto um fantoche nas mãos de outros, se a fala por vezes não acompanha a voz, se o impasse é uma dúvida por resolver não há razão para questionar os porquês...

A pele que me veste diz mais do que quero,  e a vossa?

Paul Klee

Há dias em que visito a infinidade imaginária que está atrelada a mim. Não são as formas nem os sons que perturbam a solidez emocional que me está pregada na alma. Há dias que carrego em botões, há dias que ligo o som, há dias que o atrelado perde-se e numa busca desenfreada procuro por ele, volto a carregar em botões e ligo o som...

Num beco sem saída encontro uma cidade de sonho, certamente não será a escolhida de muitos, mas é a minha. Em dias de sol, o reflexo dourado dos raios deparam-se com um banho azul-esverdeado como se o céu fosse um oceano e as paredes das casas o mar.

Com o caminhar sonolento do dia, com o bocejar melancólico da noite, a lua espreita por entre um manto pregado de estrelas e de veludo. Por vezes quando ela está cheia, os bosques anseiam e desesperam por luz, sussurram ao vento na esperança que a noite não se atrase, que não perca tempo nos meandros da palidez noturna. Pequenos ecos saltitam entre as árvores, são os meus passos, sinto-os, mas não os ouço.

Na periferia dessa cidade de sonho há um pequeno recanto, lá dormem as rosas, são preguiçosas, gostam das gotas de orvalho que deambulam nos jardins de pedra e picam quem se atrever a levá-las de lá.

No moinho do monte dá para ver o que resta do bosque, há árvores que me lembram pequenos chupa-chupas, uns com sabor a cereja, a mel, a maçã caramelizada...o doce facilmente se torna amargo, basta um rasgo na alma para que dela escorra o fel, ensopando-me da cabeça aos pés. E com simples mas majestosos tinidos os ramos agradecem a minha visita.

Hoje encontrei essa cidade de sonho, não preciso de bilhete nem de uma viagem para a visitar, não preciso de convite nem de companhia. Quando o atrelado se voltar a perder, espero poder descobrir novos mundos, visitar cidades que farão com toda a certeza parte deste oceano.

(As pinturas que aqui deixo são do Paul Klee, achei-as interessantes ao ponto de me darem motivos para aqui vir. Seguindo a ordem que estão dispostas temos: Dream City, Full Moon, The Rose Garden, Imaginary Garden e Small Rhythmic Landscape)

sábado, junho 30, 2012

Melodicamente falando...

Na rotina do zapping, que tarefa mais ingrata essa, reencontrei uma música que gosto muito e é raro ouvi-la. "Damn I Wish I Was Your Lover" da Sophie B. Hawkins, dizem que é um One Hit Wonder, até pode ser mais conheço mais duas músicas dela.

Quando a ouço, o inicio é basicamente o começo de uma emoção, com pezinhos de lã, à procura de um abrigo que não precisa de barreiras para evitar as pragas mundanas. Mas não é preciso muito para que os contornos musicais ganhem relevo como um papagaio de papel a esvoçar no ar, e quem me dera ser um, ao menos estaria com os pés bem longe da terra e já em falo da mente.

Não é que eu queria ser um amante, mas é impossivel ficar indiferente a uma série de coisas. Preciso organizar as ideias, as emoções e os sentimentos, e com tanta tralha que tenho guardada o mais certo é trincar os dedos na gaveta quando a fechar. Eu conheço-me bem, por mais organizado que eu seja, farto-me de ver as ideias espalhadas em notas e papeis. E fico por aqui, já que as palavras escorregam-me dos dedos e não as quero ver magoadas...

quinta-feira, junho 28, 2012

Fiona Apple :-)


Fiona Apple está de volta. A sua voz, a sua maneira de ver e sentir as relações, as letras que transpiram um modo alternativo de se ver o amor e suas consequências…tudo faz parte de um álbum complexo, por vezes nada melódico de se ouvir, com alguns entraves à fluidez da melodia, mas depois de algumas vezes as raízes das notas musicais ficam presas em nós e o dramatismo latente do jazz/blues e sei lá mais o quê (definir o álbum é complicado…)  acaba por diluir-se nos tímpanos…

Depois de “Tidal” (o seu primeiro álbum) este talvez seja mesmo o melhor. Há algo cru em todo ele, há músicas que parecem desorganizadas, letras que podem chocar um pouco, e o som…todo ele pede um palco, um recinto pequeno e um ambiente acolhedor.

Se por exemplo em “Regret” ela diz “I ran out of white dove feathers/To soak up the hot piss that comes through your mouth/Every time you address me” em que é notória a raiva que tem por uma pessoa, já em “Hot Knife” diz “If I'm butter - if I'm butter-If I'm butter, then he's a hot knife, He makes my heart a cinemascope, He's showing the dancing bird of paradise.” a atracção não pede fatalismo, apenas a emoção de ligação a alguém.

E porque este oceano é infinito mas tem limites, na música “Daredevil” ela diz “Seek me out / Look at, look at, look at, look at me
I'm all the fishes in the sea” e achei piada porque quando a ouvi lembrei-me deste meu espaço.

Gosto de o ouvir bem algo, mesmo nas partes em que ela parece um porco a caminho do matadouro. Gosto da projecção que ela dá à voz, talvez ela tenha a esperança que alguém do outro lado da lua um dia a ouça, mas não temos todos nós essa vontade? Se não for na lua que seja aqui mesmo ao lado.

The Idler Wheel…” (o nome do album é longo…) não é para todos, por vezes penso “como é possível gostar deste álbum” mas depois de alguns dias, entendo a razão: há boa música que não segue fórmulas, nem melodias açucaradas que ficam na memória. Fiona Apple consegue o tempero ideal, um pouco agridoce para alimentar este meu oceano que tanto precisa de um pouco de tudo. Posso estar nele, mas o barco oscila com o passar das ondas…

sábado, junho 23, 2012

Inveja

Sentir inveja não é bom, e eu estou a senti-la.

Sinto-me um pecador num altar repleto de santos e por mais que me queira castigar, não consigo ignorar a razão que me levou a receber um dos 7 pecados capitais no meu mundo. Este é o meu confessionário...

Não sou de cobiçar o que os outros têm, nem o que conseguem ter. Não fico de olho na vida alheia dos outros, nem me deixo levar pelas facilidades de pecar. Mas ontem o fiz, hoje estou a fazê-lo e sei que amanhã o farei.

O facilitismo mental e emocional deveria de ser proibido, banido dos idealismos que habitam a vontade que tenho em me questionar "porque é que eu não posso fazer o mesmo que os outros fazem?" ou "porque é que me é tão difícil conseguir o que os outros conseguem?" mas acabo por perder tempo quando o faço.

Lamurias não dão em nada, e por mais que a inveja esteja aos gritos, a fazer birras e por vezes a morder para chamar à atenção, surge o outro lado da questão, se a inveja aparece é porque a indefinição do momento o pede. Queria ter ferramentas que me dessem as mãos para definir o indefinido, e fazer da soma de todas as partes o que queria alcançar. E por mais esquemas, e fórmulas matemáticas o resultado é nulo, ou negativo, no pior dos casos.

Se pudesse seria um caracol que foge para dentro de casa para ninguém o chatear. Ficava alheado da realidade. Talvez ele é que sabe melhor que ninguem porque razão o faz.

A inveja é uma praga, consegue ser um parasita, e aos poucos e poucos deixa as suas sementinhas para mais tarde crescerem. Mas eu sei, isso tenho a certeza, por mais que os enganos possam querer sugerir, a culpa é minha.

Num momento de amnésia deixei a porta aberta, e ela entrou bem dentro de mim. Raios a partam: a inveja.

sexta-feira, junho 22, 2012

Riscos

Colei-te na pele, sorvi melancolicamente a estranheza da tua alma, e num impasse esperei até que os teus olhos encontrassem os meus, e mergulhei, divagando nas profundezas do teu abismo e encontrei-te à minha espera.

Nas asas de uma hipotese, na alternativa que uma janela nos dá, segurei-te com as forças que tinha. Senti-te, deixei-me que me sentisses. E numa dança de corpos, fomos um só.

A fome de querer algo mais, de nos deixarmos ir na penumbra do desejo, levou-nos ao que eu chamo do culminar do extâse sem sentidos. Ficamos surdos, mudos, cegos, deixamos de sentir o nosso sabor, deixamos de nos sentir...

E novamente nas asas de uma hipotese, a alternativa deixou de a ser, passou a ser a realidade, nua, despida de todas as máscaras que tinhamos. Forçou-nos a engolir o orgulho, e acabamos por começar a contar o tempo com as marcas que tinhamos à mão.

Marquei-te da forma como podia, e tu em mim marcaste-me da forma que sabias.

Dizem que os extremos se atraiem, não sei se o és, sei que não és me indiferente... 


(Não era bem este texto que queria escrever para está música e este video...acho a música sublime, o video ainda mais. Queria ter escrito uma história de amor-ódio mas não as sei escrever. Reside em mim histórias de amor, mesmo que sejam alternativas, o ódio não faz parte delas.)

sexta-feira, junho 15, 2012

A Caixa de fósforos

Tenho dias em que a visto como uma segunda pele. Mesmo não querendo, sinto-me aconchegado, é como se eu fosse uma laranja e tudo à minha volta é a casca. Não preciso de uma segunda pele, nem quero a casca, preciso que alguém fique com os dedos com o aroma da laranja, talvez aí me sinta descascado.

Tenho momentos de a querer arrumá-la numa caixa, colocar um destinatário, e vê-la e ir-se embora. O problema é que tenho o remetente colado à alma, e ela acaba sempre por vir ter comigo.

Tenho alturas em que a felicidade chove por entre os pingos da chuva, e sinto-a a abraçar-me, eloquentemente, e de forma fortuita. Rouba de mim o que julgo ter, mas não tenho. Todos os dias me engano, e todos os dias passo um atestado de estupidez a mim próprio.

Tenho horas de sonhos de olhos bem abertos, e são nesses impasses em que a realidade se confunde com o mistério dos desejos, que ela me bate à porta, e a deixa escancarada para que todos a vejam. Sinto-a praticamente todos os dias. Já troquei de fechadura, já mudei de casa, e já pensei viver numa caixa de fósforos.

É na esperança e algum dia alguém pegue nos fósforos e os faça arder que reside a luz que brilha mas não se vê. E eu anseio por fogo, quero ver tudo a arder. Não me importo com a cinzas da minha alma, nem com os estilhaços dos telhados de vidro...quero ver a caixa de fósforos tornada em pedaços de uma alma que procura por fogo mas que não o sabe como ter.