"As coisas que te caem dos olhos" do escritor italiano Gabriele Picco é daqueles livros em que nele há um cruzamentos de pequenas histórias, com personagens um pouco deslocadas da realidade, no entanto, é mesmo esse fator que o torna tão especial, pois é acompanhado por uma série de pequenas gotas (e não são as lágrimas) repletas de imaginação que o fazem ser um dos livros mais interessantes que já li nos últimos anos. O final é assombroso, porque exige de nós, leitores, uma capacidade de imaginar um mundo onde o real é misturado com os sonhos, sim pode ser essa a palavra...e há lá uma referência que achei piada, porque quem consegue ver a cauda de um sonho é um bom sinal. Era isso que eu queria para o dia dos meus anos :-)
Quando um livro deixa-me com vontade de deixar pequenos excertos aqui, neste espaço é sinal que o dia que levei para o ler valeu e muito :-)
Aqui vão elas...
"PLIM...PLIM...Lágrimas. Imaginem vê-las cair dos olhos, e que dentro está a vossa mãe com rosto de menina, acariciando os cabelos, ajeitando-os atrás de uma orelha. Imaginem que veem dentro delas os rostos e lugares da vossa vida...as montanhas, com os céus encostados, autoestradas e passagens desniveladas, e árvores que nadam na água salgada de pequenas lágrimas. E rebentam no chão, salpicando tudo à volta. Para não voltar mais. Tudo transborda dos diques dos olhos, e escapou.
Para sempre. Como a história que está para começar"
"Ennio aprendeu a ver na escuridão dos quartos ainda antes de saber ler bem em voz alta. A música da escuridão é o silêncio, melodia pura que toca o coração e as pupilas, tão grandes quanto sexos abertos à espera de ondas de luz. A música da escuridão é devastadora, com a voz de Beniamino: passa através das portas, bloqueia os ossos, perdem.se as mãos, os dedos caem como água no chão e então já não se pode agarrar a nada, apenas ser-se salvo pela mão desesperada da mãe, a mão do mundo, pião louco na escuridão do universo. Um segredo. Os segredos são feitos para ser desvendados, soltos, como a neve. Os segredos são as peles que se formam nos lábios gretados das pessoas, retirados com pequenas mordidelas, com cuidado para não sangrar."


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