Nos dias em que me sinto perdido no meio da multidão (no meio do nada), tenho comigo a pele que me veste. É nela que sinto os fragmentos dos outros e sinto os meus, confio neles, como se a minha maior arma fosse o principo do fim de uma série de coisas, com o prazo prestes a atingir a meta.
A pele que me veste é um casulo, uma vestimenta insuportável de a sentir. A carne reclama, os ossos choram de dor e a alma tem dias que já nem me fala. Se rodopio porque penso que estou num carrosel, se me sinto um fantoche nas mãos de outros, se a fala por vezes não acompanha a voz, se o impasse é uma dúvida por resolver não há razão para questionar os porquês...
A pele que me veste diz mais do que quero, e a vossa?
Há dias em que visito a infinidade imaginária que está atrelada a mim. Não são as formas nem os sons que perturbam a solidez emocional que me está pregada na alma. Há dias que carrego em botões, há dias que ligo o som, há dias que o atrelado perde-se e numa busca desenfreada procuro por ele, volto a carregar em botões e ligo o som...
Num beco sem saída encontro uma cidade de sonho, certamente não será a escolhida de muitos, mas é a minha. Em dias de sol, o reflexo dourado dos raios deparam-se com um banho azul-esverdeado como se o céu fosse um oceano e as paredes das casas o mar.
Com o caminhar sonolento do dia, com o bocejar melancólico da noite, a lua espreita por entre um manto pregado de estrelas e de veludo. Por vezes quando ela está cheia, os bosques anseiam e desesperam por luz, sussurram ao vento na esperança que a noite não se atrase, que não perca tempo nos meandros da palidez noturna. Pequenos ecos saltitam entre as árvores, são os meus passos, sinto-os, mas não os ouço.
Na periferia dessa cidade de sonho há um pequeno recanto, lá dormem as rosas, são preguiçosas, gostam das gotas de orvalho que deambulam nos jardins de pedra e picam quem se atrever a levá-las de lá.
No moinho do monte dá para ver o que resta do bosque, há árvores que me lembram pequenos chupa-chupas, uns com sabor a cereja, a mel, a maçã caramelizada...o doce facilmente se torna amargo, basta um rasgo na alma para que dela escorra o fel, ensopando-me da cabeça aos pés. E com simples mas majestosos tinidos os ramos agradecem a minha visita.
Hoje encontrei essa cidade de sonho, não preciso de bilhete nem de uma viagem para a visitar, não preciso de convite nem de companhia. Quando o atrelado se voltar a perder, espero poder descobrir novos mundos, visitar cidades que farão com toda a certeza parte deste oceano.
(As pinturas que aqui deixo são do Paul Klee, achei-as interessantes ao ponto de me darem motivos para aqui vir. Seguindo a ordem que estão dispostas temos: Dream City, Full Moon, The Rose Garden, Imaginary Garden e Small Rhythmic Landscape)
Na rotina do zapping, que tarefa mais ingrata essa, reencontrei uma música que gosto muito e é raro ouvi-la. "Damn I Wish I Was Your Lover" da Sophie B. Hawkins, dizem que é um One Hit Wonder, até pode ser mais conheço mais duas músicas dela.
Quando a ouço, o inicio é basicamente o começo de uma emoção, com pezinhos de lã, à procura de um abrigo que não precisa de barreiras para evitar as pragas mundanas. Mas não é preciso muito para que os contornos musicais ganhem relevo como um papagaio de papel a esvoçar no ar, e quem me dera ser um, ao menos estaria com os pés bem longe da terra e já em falo da mente.
Não é que eu queria ser um amante, mas é impossivel ficar indiferente a uma série de coisas. Preciso organizar as ideias, as emoções e os sentimentos, e com tanta tralha que tenho guardada o mais certo é trincar os dedos na gaveta quando a fechar. Eu conheço-me bem, por mais organizado que eu seja, farto-me de ver as ideias espalhadas em notas e papeis. E fico por aqui, já que as palavras escorregam-me dos dedos e não as quero ver magoadas...
Fiona Apple está
de volta. A sua voz, a sua maneira de ver e sentir as relações, as letras que
transpiram um modo alternativo de se ver o amor e suas consequências…tudo faz
parte de um álbum complexo, por vezes nada melódico de se ouvir, com alguns
entraves à fluidez da melodia, mas depois de algumas vezes as raízes das notas
musicais ficam presas em nós e o dramatismo latente do jazz/blues e sei lá mais
o quê (definir o álbum é complicado…) acaba
por diluir-se nos tímpanos…
Depois de “Tidal”
(o seu primeiro álbum) este talvez seja mesmo o melhor. Há algo cru em todo
ele, há músicas que parecem desorganizadas, letras que podem chocar um pouco, e
o som…todo ele pede um palco, um recinto pequeno e um ambiente acolhedor.
Se por exemplo em “Regret” ela diz “I ran out of white
dove feathers/To soak up the hot piss that comes through your mouth/Every time
you address me” em que é notória a raiva que tem por uma pessoa, já em “Hot
Knife” diz “If I'm butter - if I'm butter-If I'm butter, then he's a
hot knife, He makes my heart a cinemascope, He's showing the dancing bird of
paradise.” a atracção não pede fatalismo, apenas a emoção de ligação a alguém.
E porque este
oceano é infinito mas tem limites, na música “Daredevil” ela diz “Seek
me out / Look at, look at, look at, look at me
I'm all the fishes in the sea” e achei piada porque quando a ouvi lembrei-me
deste meu espaço.
Gosto de o ouvir
bem algo, mesmo nas partes em que ela parece um porco a caminho do matadouro.
Gosto da projecção que ela dá à voz, talvez ela tenha a esperança que alguém do
outro lado da lua um dia a ouça, mas não temos todos nós essa vontade? Se não
for na lua que seja aqui mesmo ao lado.
“The Idler
Wheel…” (o nome do album é longo…)
não é para todos, por vezes penso “como é possível gostar deste álbum” mas
depois de alguns dias, entendo a razão: há boa música que não segue fórmulas,
nem melodias açucaradas que ficam na memória. Fiona Apple consegue o tempero
ideal, um pouco agridoce para alimentar este meu oceano que tanto precisa de um
pouco de tudo. Posso estar nele, mas o barco oscila com o passar das ondas…
Sinto-me um pecador num altar repleto de santos e por mais que me queira castigar, não consigo ignorar a razão que me levou a receber um dos 7 pecados capitais no meu mundo. Este é o meu confessionário...
Não sou de cobiçar o que os outros têm, nem o que conseguem ter. Não fico de olho na vida alheia dos outros, nem me deixo levar pelas facilidades de pecar. Mas ontem o fiz, hoje estou a fazê-lo e sei que amanhã o farei.
O facilitismo mental e emocional deveria de ser proibido, banido dos idealismos que habitam a vontade que tenho em me questionar "porque é que eu não posso fazer o mesmo que os outros fazem?" ou "porque é que me é tão difícil conseguir o que os outros conseguem?" mas acabo por perder tempo quando o faço.
Lamurias não dão em nada, e por mais que a inveja esteja aos gritos, a fazer birras e por vezes a morder para chamar à atenção, surge o outro lado da questão, se a inveja aparece é porque a indefinição do momento o pede. Queria ter ferramentas que me dessem as mãos para definir o indefinido, e fazer da soma de todas as partes o que queria alcançar. E por mais esquemas, e fórmulas matemáticas o resultado é nulo, ou negativo, no pior dos casos.
Se pudesse seria um caracol que foge para dentro de casa para ninguém o chatear. Ficava alheado da realidade. Talvez ele é que sabe melhor que ninguem porque razão o faz.
A inveja é uma praga, consegue ser um parasita, e aos poucos e poucos deixa as suas sementinhas para mais tarde crescerem. Mas eu sei, isso tenho a certeza, por mais que os enganos possam querer sugerir, a culpa é minha.
Num momento de amnésia deixei a porta aberta, e ela entrou bem dentro de mim. Raios a partam: a inveja.
Colei-te na pele, sorvi melancolicamente a estranheza da tua alma, e num impasse esperei até que os teus olhos encontrassem os meus, e mergulhei, divagando nas profundezas do teu abismo e encontrei-te à minha espera.
Nas asas de uma hipotese, na alternativa que uma janela nos dá, segurei-te com as forças que tinha. Senti-te, deixei-me que me sentisses. E numa dança de corpos, fomos um só.
A fome de querer algo mais, de nos deixarmos ir na penumbra do desejo, levou-nos ao que eu chamo do culminar do extâse sem sentidos. Ficamos surdos, mudos, cegos, deixamos de sentir o nosso sabor, deixamos de nos sentir...
E novamente nas asas de uma hipotese, a alternativa deixou de a ser, passou a ser a realidade, nua, despida de todas as máscaras que tinhamos. Forçou-nos a engolir o orgulho, e acabamos por começar a contar o tempo com as marcas que tinhamos à mão.
Marquei-te da forma como podia, e tu em mim marcaste-me da forma que sabias.
Dizem que os extremos se atraiem, não sei se o és, sei que não és me indiferente...
(Não era bem este texto que queria escrever para está música e este video...acho a música sublime, o video ainda mais. Queria ter escrito uma história de amor-ódio mas não as sei escrever. Reside em mim histórias de amor, mesmo que sejam alternativas, o ódio não faz parte delas.)
Tenho dias em que a visto como uma segunda pele. Mesmo não querendo, sinto-me aconchegado, é como se eu fosse uma laranja e tudo à minha volta é a casca. Não preciso de uma segunda pele, nem quero a casca, preciso que alguém fique com os dedos com o aroma da laranja, talvez aí me sinta descascado.
Tenho momentos de a querer arrumá-la numa caixa, colocar um destinatário, e vê-la e ir-se embora. O problema é que tenho o remetente colado à alma, e ela acaba sempre por vir ter comigo.
Tenho alturas em que a felicidade chove por entre os pingos da chuva, e sinto-a a abraçar-me, eloquentemente, e de forma fortuita. Rouba de mim o que julgo ter, mas não tenho. Todos os dias me engano, e todos os dias passo um atestado de estupidez a mim próprio.
Tenho horas de sonhos de olhos bem abertos, e são nesses impasses em que a realidade se confunde com o mistério dos desejos, que ela me bate à porta, e a deixa escancarada para que todos a vejam. Sinto-a praticamente todos os dias. Já troquei de fechadura, já mudei de casa, e já pensei viver numa caixa de fósforos.
É na esperança e algum dia alguém pegue nos fósforos e os faça arder que reside a luz que brilha mas não se vê. E eu anseio por fogo, quero ver tudo a arder. Não me importo com a cinzas da minha alma, nem com os estilhaços dos telhados de vidro...quero ver a caixa de fósforos tornada em pedaços de uma alma que procura por fogo mas que não o sabe como ter.
No inicio senti um aperto, como se os dedos de alguém estivessem suavemente a tocar no meu âmago. Deslizaram as pontas dos dedos, serpenteando-me, percorrendo-me. Visitaram os corredores, abriram as portas e janelas, limparam o pó arejando o que estava fechado. Descobri por mais que queira que o meu coração fique fechado para o mundo, e apenas aberto para algumas pessoas, não o consigo fazer.
O aperto deu origem a um sufoco, não de dor, não de tristeza, nem de infelicidade. Fez-me abrir os olhos, e agora sofro porque não quero ver a realidade, sofro porque não a quero sentir, sofro porque sei que tudo o qu me faz ter medo faz-me questionar uma série de coisas: o que é que o meu coração quer e em que doses ele aguenta a vida no seu pleno com amor e paixão, com dor, tristeza e felicidade…
…o estranho caso de um coração, o meu, que não quer mas que é obrigado a sentir.
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que leêm o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Não sei se estou de volta, nem sei se irei manter o nome deste espaço como está. Este oceano tem um horizente, o limite esse já o vislumbrei. Porque por vezes as areias que andam no ar fazem-me imaginar oasis na sua perfeição, e por mais desconstrutivos que eles sejam, tenho que dar corda ao meu coração e para isso preciso de escrever. A razão não sei, mas como diz o poema de Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor e não o sendo, não posso deixar de ignorar o que está dentro de mim. Se não tivesse lido este poema, hoje não teria vindo aqui, quebrar o fim que tinha destinado a este espaço.
Faz todo o sentido fechar este blog, hoje pelo menos sinto que o "The End" diz tudo. Poderei ficar tentado a vir a este espaço que me acompanhou durante anos e deixar o que me vai na alma, mas sinto que cheguei ao limite do oceano, pelo menos deste que visualizei ao longo do tempo. Seguirei atentamente os blogs que geralmente visito, porque uma coisa não implica a outra.
Se algum dia estiver com vontade de voltar a escrever, provavelmente deixarei aqui o link, até lá as palavras que me vêm à cabeça são tão simples: a vida só tem sentido quando se partilha o que mais se gosta, o que se sente, o que nos mete medo e por aí fora. Como continuo com tanto para partilhar terei que arranjar uma outra forma, porque esta aqui secou, pois cheguei ao limite deste oceano e vi que não havia nada além da linha que continua bem distante de mim, a do horizonte. E com esta metáfora escrevo: FIM.