quinta-feira, junho 28, 2012

Fiona Apple :-)


Fiona Apple está de volta. A sua voz, a sua maneira de ver e sentir as relações, as letras que transpiram um modo alternativo de se ver o amor e suas consequências…tudo faz parte de um álbum complexo, por vezes nada melódico de se ouvir, com alguns entraves à fluidez da melodia, mas depois de algumas vezes as raízes das notas musicais ficam presas em nós e o dramatismo latente do jazz/blues e sei lá mais o quê (definir o álbum é complicado…)  acaba por diluir-se nos tímpanos…

Depois de “Tidal” (o seu primeiro álbum) este talvez seja mesmo o melhor. Há algo cru em todo ele, há músicas que parecem desorganizadas, letras que podem chocar um pouco, e o som…todo ele pede um palco, um recinto pequeno e um ambiente acolhedor.

Se por exemplo em “Regret” ela diz “I ran out of white dove feathers/To soak up the hot piss that comes through your mouth/Every time you address me” em que é notória a raiva que tem por uma pessoa, já em “Hot Knife” diz “If I'm butter - if I'm butter-If I'm butter, then he's a hot knife, He makes my heart a cinemascope, He's showing the dancing bird of paradise.” a atracção não pede fatalismo, apenas a emoção de ligação a alguém.

E porque este oceano é infinito mas tem limites, na música “Daredevil” ela diz “Seek me out / Look at, look at, look at, look at me
I'm all the fishes in the sea” e achei piada porque quando a ouvi lembrei-me deste meu espaço.

Gosto de o ouvir bem algo, mesmo nas partes em que ela parece um porco a caminho do matadouro. Gosto da projecção que ela dá à voz, talvez ela tenha a esperança que alguém do outro lado da lua um dia a ouça, mas não temos todos nós essa vontade? Se não for na lua que seja aqui mesmo ao lado.

The Idler Wheel…” (o nome do album é longo…) não é para todos, por vezes penso “como é possível gostar deste álbum” mas depois de alguns dias, entendo a razão: há boa música que não segue fórmulas, nem melodias açucaradas que ficam na memória. Fiona Apple consegue o tempero ideal, um pouco agridoce para alimentar este meu oceano que tanto precisa de um pouco de tudo. Posso estar nele, mas o barco oscila com o passar das ondas…

sábado, junho 23, 2012

Inveja

Sentir inveja não é bom, e eu estou a senti-la.

Sinto-me um pecador num altar repleto de santos e por mais que me queira castigar, não consigo ignorar a razão que me levou a receber um dos 7 pecados capitais no meu mundo. Este é o meu confessionário...

Não sou de cobiçar o que os outros têm, nem o que conseguem ter. Não fico de olho na vida alheia dos outros, nem me deixo levar pelas facilidades de pecar. Mas ontem o fiz, hoje estou a fazê-lo e sei que amanhã o farei.

O facilitismo mental e emocional deveria de ser proibido, banido dos idealismos que habitam a vontade que tenho em me questionar "porque é que eu não posso fazer o mesmo que os outros fazem?" ou "porque é que me é tão difícil conseguir o que os outros conseguem?" mas acabo por perder tempo quando o faço.

Lamurias não dão em nada, e por mais que a inveja esteja aos gritos, a fazer birras e por vezes a morder para chamar à atenção, surge o outro lado da questão, se a inveja aparece é porque a indefinição do momento o pede. Queria ter ferramentas que me dessem as mãos para definir o indefinido, e fazer da soma de todas as partes o que queria alcançar. E por mais esquemas, e fórmulas matemáticas o resultado é nulo, ou negativo, no pior dos casos.

Se pudesse seria um caracol que foge para dentro de casa para ninguém o chatear. Ficava alheado da realidade. Talvez ele é que sabe melhor que ninguem porque razão o faz.

A inveja é uma praga, consegue ser um parasita, e aos poucos e poucos deixa as suas sementinhas para mais tarde crescerem. Mas eu sei, isso tenho a certeza, por mais que os enganos possam querer sugerir, a culpa é minha.

Num momento de amnésia deixei a porta aberta, e ela entrou bem dentro de mim. Raios a partam: a inveja.

sexta-feira, junho 22, 2012

Riscos

Colei-te na pele, sorvi melancolicamente a estranheza da tua alma, e num impasse esperei até que os teus olhos encontrassem os meus, e mergulhei, divagando nas profundezas do teu abismo e encontrei-te à minha espera.

Nas asas de uma hipotese, na alternativa que uma janela nos dá, segurei-te com as forças que tinha. Senti-te, deixei-me que me sentisses. E numa dança de corpos, fomos um só.

A fome de querer algo mais, de nos deixarmos ir na penumbra do desejo, levou-nos ao que eu chamo do culminar do extâse sem sentidos. Ficamos surdos, mudos, cegos, deixamos de sentir o nosso sabor, deixamos de nos sentir...

E novamente nas asas de uma hipotese, a alternativa deixou de a ser, passou a ser a realidade, nua, despida de todas as máscaras que tinhamos. Forçou-nos a engolir o orgulho, e acabamos por começar a contar o tempo com as marcas que tinhamos à mão.

Marquei-te da forma como podia, e tu em mim marcaste-me da forma que sabias.

Dizem que os extremos se atraiem, não sei se o és, sei que não és me indiferente... 


(Não era bem este texto que queria escrever para está música e este video...acho a música sublime, o video ainda mais. Queria ter escrito uma história de amor-ódio mas não as sei escrever. Reside em mim histórias de amor, mesmo que sejam alternativas, o ódio não faz parte delas.)

sexta-feira, junho 15, 2012

A Caixa de fósforos

Tenho dias em que a visto como uma segunda pele. Mesmo não querendo, sinto-me aconchegado, é como se eu fosse uma laranja e tudo à minha volta é a casca. Não preciso de uma segunda pele, nem quero a casca, preciso que alguém fique com os dedos com o aroma da laranja, talvez aí me sinta descascado.

Tenho momentos de a querer arrumá-la numa caixa, colocar um destinatário, e vê-la e ir-se embora. O problema é que tenho o remetente colado à alma, e ela acaba sempre por vir ter comigo.

Tenho alturas em que a felicidade chove por entre os pingos da chuva, e sinto-a a abraçar-me, eloquentemente, e de forma fortuita. Rouba de mim o que julgo ter, mas não tenho. Todos os dias me engano, e todos os dias passo um atestado de estupidez a mim próprio.

Tenho horas de sonhos de olhos bem abertos, e são nesses impasses em que a realidade se confunde com o mistério dos desejos, que ela me bate à porta, e a deixa escancarada para que todos a vejam. Sinto-a praticamente todos os dias. Já troquei de fechadura, já mudei de casa, e já pensei viver numa caixa de fósforos.

É na esperança e algum dia alguém pegue nos fósforos e os faça arder que reside a luz que brilha mas não se vê. E eu anseio por fogo, quero ver tudo a arder. Não me importo com a cinzas da minha alma, nem com os estilhaços dos telhados de vidro...quero ver a caixa de fósforos tornada em pedaços de uma alma que procura por fogo mas que não o sabe como ter.


sexta-feira, junho 01, 2012

Euforia

No inicio senti um aperto, como se os dedos de alguém estivessem suavemente a tocar no meu âmago. Deslizaram as pontas dos dedos, serpenteando-me, percorrendo-me. Visitaram os corredores, abriram as portas e janelas, limparam o pó arejando o que estava fechado. Descobri por mais que queira que o meu coração fique fechado para o mundo, e apenas aberto para algumas pessoas, não o consigo fazer.
 
O aperto deu origem a um sufoco, não de dor, não de tristeza, nem de infelicidade. Fez-me abrir os olhos, e agora sofro porque não quero ver a realidade, sofro porque não a quero sentir, sofro porque sei que tudo o qu me faz ter medo faz-me questionar uma série de coisas: o que é que o meu coração quer e em que doses ele aguenta a vida no seu pleno com amor e paixão, com dor, tristeza e felicidade…

…o estranho caso de um coração, o meu, que não quer mas que é obrigado a sentir.

sábado, maio 26, 2012

Autopsicografia

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leêm o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Não sei se estou de volta, nem sei se irei manter o nome deste espaço como está. Este oceano tem um horizente, o limite esse já o vislumbrei. Porque por vezes as areias que andam no ar fazem-me imaginar oasis na sua perfeição, e por mais desconstrutivos que eles sejam, tenho que dar corda ao meu coração e para isso preciso de escrever. A razão não sei, mas como diz o poema de Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor e não o sendo, não posso deixar de ignorar o que está dentro de mim. Se não tivesse lido este poema, hoje não teria vindo aqui, quebrar o fim que tinha destinado a este espaço.

domingo, janeiro 22, 2012

09/11/96 - 22/01/12


Faz todo o sentido fechar este blog, hoje pelo menos sinto que o "The End" diz tudo. Poderei ficar tentado a vir a este espaço que me acompanhou durante anos e deixar o que me vai na alma, mas sinto que cheguei ao limite do oceano, pelo menos deste que visualizei ao longo do tempo. Seguirei atentamente os blogs que geralmente visito, porque uma coisa não implica a outra.

Se algum dia estiver com vontade de voltar a escrever, provavelmente deixarei aqui o link, até lá as palavras que me vêm à cabeça são tão simples: a vida só tem sentido quando se partilha o que mais se gosta, o que se sente, o que nos mete medo e por aí fora. Como continuo com tanto para partilhar terei que arranjar uma outra forma, porque esta aqui secou, pois cheguei ao limite deste oceano e vi que não havia nada além da linha que continua bem distante de mim, a do horizonte. E com esta metáfora escrevo: FIM.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Eu - O Fantasma

Ok...não era para escrever este texto, nem era para pensar nos motivos que me levam a escrever, mas 2012 nasceu, e cada vez mais me dá motivos para combater o meu estado de espírito. Não sei porque razão tenho a percepção de que não vale a pena partilhar o que gosto, o que sinto, o que me dá prazer, o que me faz rir, o que me faz chorar, o que me intriga...há uma série de coisas que tenho vontade de as deixar dentro de mim, acho que algo me força a ser um bicho do mato, e ser uma espécie de bicho que não quer saber de ninguém, que apenas quer estar onde está. Não vivo isolado do mundo, mas tenho dias que bem gostaria.

A parte boa desta fase...por outro lado há uma força que me diz para ser um guerreiro, para combater as energias negativas, para deixar passar a inércia e abraçar os campos lavrados pela esperança. Sinto isso todos os dias, mas por vezes o que me chama à razão é de que ninguém quer saber de ninguém. Eu posso querer ser um bicho do mato mas sei que não estou só, há pessoas que também o são, só que não sabem. Mas isso não me faz sentir melhor...sou um fantasma que por vezes assombra pessoas e sitios mas quando abro bem os olhos, vejo que a assombração é apenas o reflexo da minha própria identidade. Julgo que tenho uma, mas hoje não a sinto dentro de mim, sou um fantasma e algo mais...

domingo, janeiro 15, 2012

Sentidos sensoriais

Há já muito tempo que não via um filme que não me desse tantos motivos para escrever. Mas não o vou fazer, vou ficar pelas palavras simples, já que o filme o é, mas com uma mensagem do tamanho do mundo. Já contava com um filme baseado nos sentimentos, sem um grande estardalhaço a nível narrativo mas à medida que a história decorre eu senti-me na pele das personagens daquela realidade. O que seria de mim se ficasse sem o olfacto, depois o paladar (fico por aqui para não falar do que não devo) o filme é inteligente e se depois de "Melancolia" no final senti uma vontade doida de o voltar a ver, com "Perfect Senses" o mesmo se passou. A cena final é para mim bela, porque depois de uma hora e meia, e sabendo que o desfecho da história só poderia ser aquele, não contava com a subtileza que nos é dada. Por vezes há filmes que pedem uma continuação mas este por mais implícita que ela esteja, temos que ser inteligentes ao ponto de entender uma coisa: há mensagens que não precisam de atalhos para chegarmos a elas. Não sei se lá cheguei mas ADOREI o filme.  



Agora resta-me continuar na realidade de 2012, não começou bem, continua a metamorfosear-se e eu com ela. Ando a tentar perceber porque motivo a vida é como é. Esta semana irá começar de uma forma e sei que irá terminar de uma outra forma e por isso estou na expectativa que a vida me dê um mimo, e ela sabe melhor do que ninguém o que tem que ser. Falemos de positivismo, já que o oposto é sempre o mais fácil de o abraçarmos. E os meus braços estão cansados.

sábado, janeiro 07, 2012

2012...será que vou tarde?!

Não estou aqui para desejar feliz ano de 2012 a ninguém, pois já lá vão sete dias, mas penso que todos sabem que os votos estão aqui, meio escondidos, como um sorriso que não quero mostrar porque não tenho vontade para mostrar os dentes. Tinha em mente em 2012 mudar algumas coisas em mim e o que é certo é que o destino me pregou uma rasteira, cai estatelado no chão e não tenho a mínima vontade de me levantar. Chamem-me de preguiçoso, mas o que sei é que a vida é madrasta para os filhos dos outros e sinto-me parte dessa prole.

Regra geral dispenso o final de ano, sou uma pessoa nostálgica, deixo-me enredar pelas histórias do passado e por mais insípidas que possam ser, fiz parte delas e sendo personagem principal, secundária ou um mero figurante estive lá, e por essa razão, saber que o meu patrão tinha tido aneurisma e que estava em coma no dia 31 abalou-me, foi como levar uma marretada e aos poucos e poucos sentia o meu corpo a enfiar-se num buraco. No dia 1, o primeiro de 2012 soube que tinha falecido, e digamos que já nessa altura todo o meu corpo estava confinado a um casulo e a minha vontade para sair de lá era pouca. Foi um choque, ainda o é, a minha vida de certa forma levou um abanão e se à partida tinha a intenção de mudar algumas coisas em mim, hoje sinto que já as comecei. Não me dou bem com a mudança, não posso dizer que esteja bem, pois não estou, ando triste, a pensar na vida, na minha, na dos outros e penso que é mais uma prova a mim mesmo que não sou egoísta..ok há dias que sou mas o que agora me passa pela cabeça é tentar encontrar algo me que faça sentir bem, porque sinto-me mal porque a vida é como é, dá lições quando não queremos aprender, e mostra-nos que o caminho nem sempre é o que temos em mente.

2012 prometia ser um ano de mudanças, e começou sendo. Sei que à partida, se tudo correr bem o meu amor será partilhado por um rebento, o da minha irmã. Se a vida por vezes é madrasta, por vezes é mãe e o que mais quero neste momento é deitar a minha cabeça no seu colo e que ela me diga que tudo irá correr bem. Eu mereço ao menos isso, nunca fiz mal a ninguém, contento-me com pouco e não sou exigente e porque razão terei que sacrificar mais do que sacrifico?

As palavras fogem-me das pontas do dedos, mas eu as sinto a cada minuto que o relógio os marca. 2012 será certamente o ano mais estranho, talvez o ano mais estranho anterior a este tenha disso 1992, e não posso parar, a vida pede-me para continuar, apesar de que a vontade é mesmo a de uma avestruz...truz truz quero enfiar a cabeça na terra mas não posso, porque não me vão deixar...