sexta-feira, junho 01, 2012

Euforia

No inicio senti um aperto, como se os dedos de alguém estivessem suavemente a tocar no meu âmago. Deslizaram as pontas dos dedos, serpenteando-me, percorrendo-me. Visitaram os corredores, abriram as portas e janelas, limparam o pó arejando o que estava fechado. Descobri por mais que queira que o meu coração fique fechado para o mundo, e apenas aberto para algumas pessoas, não o consigo fazer.
 
O aperto deu origem a um sufoco, não de dor, não de tristeza, nem de infelicidade. Fez-me abrir os olhos, e agora sofro porque não quero ver a realidade, sofro porque não a quero sentir, sofro porque sei que tudo o qu me faz ter medo faz-me questionar uma série de coisas: o que é que o meu coração quer e em que doses ele aguenta a vida no seu pleno com amor e paixão, com dor, tristeza e felicidade…

…o estranho caso de um coração, o meu, que não quer mas que é obrigado a sentir.

sábado, maio 26, 2012

Autopsicografia

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leêm o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Não sei se estou de volta, nem sei se irei manter o nome deste espaço como está. Este oceano tem um horizente, o limite esse já o vislumbrei. Porque por vezes as areias que andam no ar fazem-me imaginar oasis na sua perfeição, e por mais desconstrutivos que eles sejam, tenho que dar corda ao meu coração e para isso preciso de escrever. A razão não sei, mas como diz o poema de Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor e não o sendo, não posso deixar de ignorar o que está dentro de mim. Se não tivesse lido este poema, hoje não teria vindo aqui, quebrar o fim que tinha destinado a este espaço.

domingo, janeiro 22, 2012

09/11/96 - 22/01/12


Faz todo o sentido fechar este blog, hoje pelo menos sinto que o "The End" diz tudo. Poderei ficar tentado a vir a este espaço que me acompanhou durante anos e deixar o que me vai na alma, mas sinto que cheguei ao limite do oceano, pelo menos deste que visualizei ao longo do tempo. Seguirei atentamente os blogs que geralmente visito, porque uma coisa não implica a outra.

Se algum dia estiver com vontade de voltar a escrever, provavelmente deixarei aqui o link, até lá as palavras que me vêm à cabeça são tão simples: a vida só tem sentido quando se partilha o que mais se gosta, o que se sente, o que nos mete medo e por aí fora. Como continuo com tanto para partilhar terei que arranjar uma outra forma, porque esta aqui secou, pois cheguei ao limite deste oceano e vi que não havia nada além da linha que continua bem distante de mim, a do horizonte. E com esta metáfora escrevo: FIM.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Eu - O Fantasma

Ok...não era para escrever este texto, nem era para pensar nos motivos que me levam a escrever, mas 2012 nasceu, e cada vez mais me dá motivos para combater o meu estado de espírito. Não sei porque razão tenho a percepção de que não vale a pena partilhar o que gosto, o que sinto, o que me dá prazer, o que me faz rir, o que me faz chorar, o que me intriga...há uma série de coisas que tenho vontade de as deixar dentro de mim, acho que algo me força a ser um bicho do mato, e ser uma espécie de bicho que não quer saber de ninguém, que apenas quer estar onde está. Não vivo isolado do mundo, mas tenho dias que bem gostaria.

A parte boa desta fase...por outro lado há uma força que me diz para ser um guerreiro, para combater as energias negativas, para deixar passar a inércia e abraçar os campos lavrados pela esperança. Sinto isso todos os dias, mas por vezes o que me chama à razão é de que ninguém quer saber de ninguém. Eu posso querer ser um bicho do mato mas sei que não estou só, há pessoas que também o são, só que não sabem. Mas isso não me faz sentir melhor...sou um fantasma que por vezes assombra pessoas e sitios mas quando abro bem os olhos, vejo que a assombração é apenas o reflexo da minha própria identidade. Julgo que tenho uma, mas hoje não a sinto dentro de mim, sou um fantasma e algo mais...

domingo, janeiro 15, 2012

Sentidos sensoriais

Há já muito tempo que não via um filme que não me desse tantos motivos para escrever. Mas não o vou fazer, vou ficar pelas palavras simples, já que o filme o é, mas com uma mensagem do tamanho do mundo. Já contava com um filme baseado nos sentimentos, sem um grande estardalhaço a nível narrativo mas à medida que a história decorre eu senti-me na pele das personagens daquela realidade. O que seria de mim se ficasse sem o olfacto, depois o paladar (fico por aqui para não falar do que não devo) o filme é inteligente e se depois de "Melancolia" no final senti uma vontade doida de o voltar a ver, com "Perfect Senses" o mesmo se passou. A cena final é para mim bela, porque depois de uma hora e meia, e sabendo que o desfecho da história só poderia ser aquele, não contava com a subtileza que nos é dada. Por vezes há filmes que pedem uma continuação mas este por mais implícita que ela esteja, temos que ser inteligentes ao ponto de entender uma coisa: há mensagens que não precisam de atalhos para chegarmos a elas. Não sei se lá cheguei mas ADOREI o filme.  



Agora resta-me continuar na realidade de 2012, não começou bem, continua a metamorfosear-se e eu com ela. Ando a tentar perceber porque motivo a vida é como é. Esta semana irá começar de uma forma e sei que irá terminar de uma outra forma e por isso estou na expectativa que a vida me dê um mimo, e ela sabe melhor do que ninguém o que tem que ser. Falemos de positivismo, já que o oposto é sempre o mais fácil de o abraçarmos. E os meus braços estão cansados.

sábado, janeiro 07, 2012

2012...será que vou tarde?!

Não estou aqui para desejar feliz ano de 2012 a ninguém, pois já lá vão sete dias, mas penso que todos sabem que os votos estão aqui, meio escondidos, como um sorriso que não quero mostrar porque não tenho vontade para mostrar os dentes. Tinha em mente em 2012 mudar algumas coisas em mim e o que é certo é que o destino me pregou uma rasteira, cai estatelado no chão e não tenho a mínima vontade de me levantar. Chamem-me de preguiçoso, mas o que sei é que a vida é madrasta para os filhos dos outros e sinto-me parte dessa prole.

Regra geral dispenso o final de ano, sou uma pessoa nostálgica, deixo-me enredar pelas histórias do passado e por mais insípidas que possam ser, fiz parte delas e sendo personagem principal, secundária ou um mero figurante estive lá, e por essa razão, saber que o meu patrão tinha tido aneurisma e que estava em coma no dia 31 abalou-me, foi como levar uma marretada e aos poucos e poucos sentia o meu corpo a enfiar-se num buraco. No dia 1, o primeiro de 2012 soube que tinha falecido, e digamos que já nessa altura todo o meu corpo estava confinado a um casulo e a minha vontade para sair de lá era pouca. Foi um choque, ainda o é, a minha vida de certa forma levou um abanão e se à partida tinha a intenção de mudar algumas coisas em mim, hoje sinto que já as comecei. Não me dou bem com a mudança, não posso dizer que esteja bem, pois não estou, ando triste, a pensar na vida, na minha, na dos outros e penso que é mais uma prova a mim mesmo que não sou egoísta..ok há dias que sou mas o que agora me passa pela cabeça é tentar encontrar algo me que faça sentir bem, porque sinto-me mal porque a vida é como é, dá lições quando não queremos aprender, e mostra-nos que o caminho nem sempre é o que temos em mente.

2012 prometia ser um ano de mudanças, e começou sendo. Sei que à partida, se tudo correr bem o meu amor será partilhado por um rebento, o da minha irmã. Se a vida por vezes é madrasta, por vezes é mãe e o que mais quero neste momento é deitar a minha cabeça no seu colo e que ela me diga que tudo irá correr bem. Eu mereço ao menos isso, nunca fiz mal a ninguém, contento-me com pouco e não sou exigente e porque razão terei que sacrificar mais do que sacrifico?

As palavras fogem-me das pontas do dedos, mas eu as sinto a cada minuto que o relógio os marca. 2012 será certamente o ano mais estranho, talvez o ano mais estranho anterior a este tenha disso 1992, e não posso parar, a vida pede-me para continuar, apesar de que a vontade é mesmo a de uma avestruz...truz truz quero enfiar a cabeça na terra mas não posso, porque não me vão deixar...
  

sábado, dezembro 17, 2011

Talvez amor não seja suficiente...

Talvez amor não seja o suficiente para se conseguir deslindar o que está mesmo à nossa frente, e porque a estrada fica entupida de caos, o pensamento de que se nasce para se morrer ganha contornos reais, daqueles que não sabemos bem o porquê, sente-se...ora nos sentimos perdidos, ora se sente que alguém nos encontrou.

Talvez amor não seja o suficiente...nascemos para morrer.


(Não há nada de mais neste pequeno texto mas esta música desperta em mim uma tonelada de nostalgia, não sei bem em que sentido, talvez a estrada que nela é retratada me persegue. No entanto não me canso de a ouvir e porque entendo a letra, senti vontade de escrever...e já lá vão uns longos dias!)

sábado, dezembro 03, 2011

Lana Del Rey

Há músicas que não me passam ao lado, há cantoras que conseguem prender a minha atenção: Lana Del Rey é a última que conseguiu. Sempre gostei de sons que vão buscar algo do passado, não será nostalgia, uma vez que o que me faz pensar nos tempos passados não faz parte da minha realidade, mas mesmo assim, deslumbro-me com sons, melodias sedutoras que partem a minha imaginação em pedaços. Acabo por ser seduzido com vontade de seduzir.

domingo, novembro 27, 2011

"Melancholia" & "Another Earth"



Neste fim-de-semana tive a sorte de perder o meu tempo em ver dois filmes que estava ansioso para ver. Talvez não tenha sido coincidência, mas ambos os filmes têm algumas coisas em comum, são lentos, virados para as personagens e além do planeta terra têm algo mais. Em "Melancholia" temos a história de um planeta que está em rota de colisão com a terra, e podem tirar o cavalinho da chuva, pois não é um filme de acção. A história é simples, um casamento, duas irmãs e um planeta prestes a colidir com a terra. O esplendor com que a história é contada é talvez o que enche mais os olhos, mas à medida que o tempo vai passando a história fica mais intima ao ponto de chegarmos ao final e ficarmos com aquela sensação de que deveria de haver mais filmes como estes. Não é para todos, eu gostei, foi como se estivesse numa prova de comidas exóticas, e uma fosse melhor do que a anterior, e a última acaba sempre por ser a mais deliciosa.

"Another Earth" é outro filme que caminha a passo do caracol, com uma história que pouco ou nada tem a ver com a do outro filme que mencionei, acaba por ter a mesma beleza, talvez menos trabalhada, mais crua, mais fria e quando queria que a história desse um pulo até à parte de ficção cientifica, fiquei preso na imaginação. 

Se "Melancholia" passou pelo festival de Cannes tendo recebido um prémio para melhor actriz, "Another Earth" passou por Sundance, também passou pelos meus olhos e o que senti quando os vi é algo que irei guardar, porque a beleza das imagens infelizmente não é a mesma que vejo nas pessoas, e por isso entendo que em casos extremos o ser humano mascara-se, no entanto fora desse tipo de situação não era necessário, mas é o que se faz porque ninguém quer ser quem é.

sábado, outubro 22, 2011

Possessão

Todos temos um limite, traçado pela esfera do tempo, pela ampulheta de areia revestida a vidro, por um amor que sempre teve os dias contados ou porque a possessão que toma conta dos nossos pensamentos diz e faz o que bem entende. Somos feitos de muita coisa, umas pessoas são feitas de argila, onde alguém coloca as mãos e faz delas o que quer, outras são feitas de vidro, que quando ficam feitas em estilhaços cortam e magoam quem lhes quer mal, e há quem é feito de ferro, mas mesmo essas acabam por dar de si, pois o calor deforma os contornos dos seus alicerces, as estruturas acabam em pequenas peças em que o tempo transforma o que é possível ser reciclado, o que não é, perdura no abismo que é estar preso em memórias, que são a companhia de uma possessão ditada pelo amor, ou a falta dele, depende do casos...um beijo dita muita coisa, limpa a falta de algo, rejuvenesce o turbilhão de uma ansiedade que perdura no silêncio, porque há coisas que não se dizem, mas o corpo as sente, e a mente responde através de suspiros intermináveis...fica-se sem respirar durante uns segundos, fechando os olhos, com a esperança que a possessão não seja um sonho...