segunda-feira, novembro 19, 2007

Abraço

Há abraços que se sentem e nunca mais os deixamos de os sentir e há choros que se ouvem, que ficam no nosso ouvido, trespassando a linha ténue que aformoseia a nossa alma, deixando-a embevecida porque há momentos únicos, tristes e desesperantes. Sentimo-los e não os queremos voltar a passar…aqueles segundos mais pareceram um abismo, no qual se mergulha e nunca mais se volta.

Abracei e senti, ouvi chorar e apertei aquele corpo contra o meu.
Por mais vontade que tivesse de chorar, não o fiz. Limitei-me a ser o elo mais forte entre nós e só eu sabia que por pouco não fui levado pela emoção, por pouco não fui eu que pedi um abraço mas acabei por guardar o choro e esse anseio dentro de mim.

Hoje foi um dia de chuva, marcado pelo cinzento cinza das nuvens e pelo o aguado vapor nos vidros. Foi o dia a seguir ao abraço, e porque este texto tem mais que se lhe diga, pelo menos a mim, apenas sei que foi a forma que consegui arranjar para libertar parte da tensão que é receber algo tão frágil e tão singelo quanto um abraço pode ser…

“When the rain is pouring down
And my heart is hurting
You will always be around
This I know for certain”
(“No One” de Alicia Keys)

E porque esta música enche-me o coração deixo-a aqui mas porque a vida é uma balança que quer o equilibro têm algo que é o oposto dos sentimentos.

Num caso é a letra e a melodia, noutro é a graciosidade que a Ugly Betty nos dá quando faz das suas…

terça-feira, novembro 13, 2007

1 Ano!

Fez um ano que “construí” este espaço. O tempo voou! Afinal tinha umas asas aladas, e nem as nuvens cinzentas carregadas de chuva dos meus momentos mais adversos fizeram com que o limite do meu oceano fosse inundado.
Há dias mais parados, outros que fervem de tanta agitação emocional.
Há dias que a imaginação transborda dentro de mim, mas para equilibrar, tenho momentos que quero mesmo deixar de querer ver o que não posso…o limite do meu oceano.

Foi através deste blog que conhecia pessoas com as quais partilho coisas boas e coisas más. Todos nós somos diferentes e tenho aprendido muito com essas pessoas.
Há quem me faça sentir verdadeiro e há quem me diga que há caminhos a serem percorridos. Partilho sentimentos com quem logo à partida deixou que o meu limite como pessoa seja a meta que eu tenho que percorrer. Há dias que consigo fazer isso sozinho, outros não.

Há dias que acabo por atirar todas as letras para dentro de um “shaker” e depois as coloco num belo copo. Quem tiver curiosidade bebe o cocktail, mas compreendo que nem sempre nos apeteça beber.

Passado um ano não sei qual o futuro deste meu espaço.
Já não venho cá as vezes que vinha, não porque não queira, mas tenho tanto para escrever que não posso ficar sempre à beira-mar, envolto num sol que se esconde no mar.
Este meu limite não será alcançado, e por mais dias que fique sem ser preenchido, sei que a areia da praia não será engolida pelo oceano.
Sei que há mares que fazem isso, mas talvez um dia a história “há mar e mar há ir e voltar” fique mais perto de deixar de ser verdade.

Um ano da minha vida já se foi e com ele foram-se alguns sonhos mas fiquei com um punhado de certezas absolutas, sem aquelas dúvidas que refutam o meu bem mais precioso.

Não creio que eu seja um espelho em que alguém possa olhar e ver nele os refúgios a que a sociedade nos remete. Nem sou a pluma que voa mesmo que não aja vento.

Um ano já se foi, fora os outros que já tinham ido…há uma frase que me disseram - “dar nós cegos nas palavras”…Talvez um dia tenha que desfazer os nós que tenho dado em certas palavras em determinados contextos…não é por isso que vale a pena os dar? O elemento surpresa é o que faz girar o meu carrossel, e o momento que estava afectado pela cegueira, deixa de estar, para contemplar a alegoria metafórica que rege a minha vida.

Vou continuar a dar nós nas palavras, uns serão cegos, outros mudos e outros serão como podem já imaginar surdos. Partindo do princípio que há palavras escritas que jamais serão vistas, ditas ou ouvidas, sei que basta sentirmos para que tudo o resto deixar de ter a importância que tem.

É com este texto que me despeço, não deste limite que todos os dias me faz companhia, mas sim deste dia que tardou a chegar mas que já está quase a acabar…

Obrigado a quem passou por cá, parou e leu neste ano que já passou por todos nós!

sábado, novembro 03, 2007

“Dias Cheios de Nada”

…porque há dias tão cheios de nada, e porque agora já posso fazer um belo e elegante sapateado com os meus dentes, por vezes fico com a sensação que estar alguns minutos a olhar para um desenho, pode realmente esvaziar um pouco o meu dia. Fiz isso e sei do que falo.

Quantas vezes sentimos dores e somos levados com ela? Quantas vezes queremos comer algo crocante e só em sonhos é que podemos nos dar ao luxo de abrir a boca para desenfreadamente fazer isso?

Há um fardo quando nos sentamos numa cadeira de um dentista e por alguns minutos, longos e até eternos, só queremos que o cheiro a sangue não faça parte do palco aonde estamos a actuar, o mesmo se passa quando sentimos uma linha, uma mísera e pobre linha, entre os dentes…há dias cheios de nada eu sei…há dias em que vale a pena passar por eles, porque mais vale estarmos a viver dias cheios de nada do que dias a transbordarem de vazio e agora que escrevo isto, sei que esses dias não fazem parte do meu contra-cronometro.

Sou quem está por detrás do sapateado, que dança e tamborila, que geme e que suspira porque anseio que no dia de amanhã esse tipo de manifestação artística, que essa dança, seja tão insignificante que um piscar de olhos.

Há dias cheios de nada, mas por ter tantos vazios de muita coisa, agora posso resfolgar-me sempre que me lembrar dos movimentos a sacarem o meu dente!

sexta-feira, novembro 02, 2007

O teu amor…

Há alturas que ficamos à espera de alguma coisa.
Há momentos que nos passam por entre os dedos, outros que se escapam nas nossas entrelinhas, que acabam mesmo por ficar à deriva num espaço que não o nosso, num lugar bem distante de nós, num palco em que nem estamos a vê-lo.
Por isso às vezes acabo por ficar agarrado à minha imaginação, e é ela a culpada que fala apenas para pequenas suposições, meros frutos da minha sensibilidade, que não me deixa ir à procura de um cavalo e cavalgando encontrar o amor de alguém. Todos nós sabemos que isso não se procura, acabasse por encontrar e é neste impasse que as minhas dúvidas ficam adormecidas e por vezes acordam.
Será que vale a pena fazer o que as outras pessoas fazem, ou mais vale acreditar nos nossos sentimentos, nos princípios que nos regem e nos fazem ser o que somos?

Tinha a ideia de escrever algo por causa de algumas letras da Sara Bareilles. O álbum de estreia dela é um misto de sons e fiquei surpreendido em encontrar palavras tão bonitas, que se movimentam em mim sempre que as ouço. Neste momento é o álbum que mais ouço e por alguma razão.

Como ela própria diz, o amor inesperado de alguém é capaz de suicidar a solidão, ou que há as entrelinhas das conversas que se tem ou que se pode aprender a ouvir através do silêncio…e é nestas alturas em que escrevo isto, que quero o suicido da minha aparente solidão, que sinto que as minhas entrelinhas são lidas e passam ao lado de tudo e de todos ou que fartei-me de estar escutar, ouvir, e entender o vocabulário do silêncio...pensei que estava mais que preparado para sangrar por dentro, e que a minha sombra seria mais que isso, mas afinal de contas sou um ser humano como vocês, e se quero o amor de alguém, deveria estar preparado para me amar… Será que estou?

Deixo aqui excertos das letras magnificas da Sara Bareilles e uma amostra do som dela…

The earth that is the space between,

I'd banish it from under me...to get to you.
Your unexpected love provides my solitary's
Suicide...oh I wish I knew
(One Sweet Love)

Head under water
And they tell me to breathe easy for a while
The breathing gets harder, even
I know that

You made room for me but it's too soon to see
If I'm happy in your hands
I'm unusually hard to hold on to
Blank stares at blank pages
No easy way to say this
You mean well, but you make this hard on me
(Love song)

Time to tell me the truth
To burden your mouth for what you say
No pieces of paper in the way
Cause i cant continue pretending to choose
The opposite sides on which we fall

The loving you laters if at all
No right minds could wrong be this many times

Leave unsaid unspoken
Eyes wide shut unopened
You and me

Always between the lines
Between the lines

I thought i thought i was ready to bleed
That we'd move from the shadows on the wall
And stand in the center of it all

Too late two choices to stay or to leave
Mine was so easy to uncover…
So i've learned to listen through silence
(Between The Lines)

You hold me without touch.
You keep me without chains.
I never wanted anything so much than to drown in your love and not feel your reign.

Set me free, leave me be.
I don't want to fall another moment into your gravity.

Here I am and I stand so tall, just the way I'm supposed to be.
But you're on to me and all over me.
(Gravity)

sexta-feira, outubro 26, 2007

Há dias assim…

Porque há dias que ficamos parvos com o que está à nossa volta, e porque há dias em que as palavras são escassas, são migalhas ao pé do que nos rodeia e não há muito a dizer.

Talvez a sensatez que falta a algumas pessoas, seja a grande culpada. Não há julgamento que faça esse tipo de pessoas penarem nos actos que cometem, não há culpa que seja sentida, apenas desculpas e mais desculpas.

Porque há dias em que julgamos termos visto um pouco de tudo, em que já sabemos que a noite está a chegar e que amanhã é outro dia, não nos podemos esquecer que a vida de alguém é tão complicada como a nossa.

Porque nem sempre temos as palavras certas para dizermos a alguém especial ou alguém que nos ensina algo, há sempre aquela sensação que tudo ficará bem.

Por vezes temos que nos mentalizar que mais um pensamento positivo poderá fazer a diferença!

Este texto é dedicado a ti…m.a.…

"Good Day" da Jewel

sábado, outubro 13, 2007

Pushing Daisies!!!

…como é que eu posso transmitir através de palavras o que esta série tem de tão especial.
Quem viu o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin” então já tem uma vaga ideia. Como li algures neste mundo cibernético “It’s Amelie for TV”!

A história é simples, não tem nada de novo apenas tem belos momentos de televisão, pequenas coisas que a mim não me passam ao lado e fazem de um mero produto televisivo algo mais.

Há olhares mágicos, gestos doces, diálogos bem escritos e cenas bem filmadas como podem ver nos vídeos que deixo aqui.

Aproveito e deixo também cenas de Amélie porque as coisas belas são para serem vistas mais que uma vez…

Espero que gostem :-)



sexta-feira, outubro 12, 2007

Manto Azul

Há dias em que saio à rua e em casa deixo os meus problemas e sigo por ruelas com uma trela nas mãos.
Com o coração a palpitar sob mim tenho um manto azul com pequenos pingos brilhantes. É o pano descoberto, a pena passada a ferro, o prego sem martelo…é a noite que me ilumina pelas caminhadas que nas noites de céu limpo dou. Dá-me acendalhas para usar, fósforos para queimar, lenha para acender e motivos para pegar neles num carrinho de bebé e ter coragem para olhar bem para a casa abandonada que vejo sempre que por aquela ruela passo.

A casa é pequena, tem uma garagem igualmente abandonada às ervas e às trepadeiras. Confesso que tenho receio de olhar para lá e ver numa janela tapada com um quadrado enegrecido de madeira uns olhos brilhantes, ou ouça um sussurrar vindo do nada.
Uma vez passei por lá e concentrei-me no som que o meu cão fazia. O seu arfar galopante, o seu rabo voluptuoso que dá o ar da sua graça sempre que pata atrás de pata procura sempre um poste para alçar a perna são distracções que abraço sempre que para o Shape olho. O meu cão…é ele que espera por mim quando chego a casa, é ele quem me segue e sem pedir licença entra no meu quarto.

Mas como um é pouco não posso deixar de referir que temos também nas nossas caminhadas a presença da magalona mezeruca e esfusiante Chantal. Ela é um mimo de cadela, é independente, mas é ela quem me dá mais beijinhos, é ela quem espera que se ponha um lençol no sofá para que possa dormir em paz, é ela que me dá a patinha sempre que peço, é ela que tem mais medo de trovoada, é ela a quem eu beijo sabendo sempre que com sorte terei não um beijo de volta, mas sim umas valentes lambidelas lambuzadas …sim o Shape e a Chantal, os meus verdadeiros companheiros das caminhadas…

Sob um manto azul, a noite perde-se e nela nós avançamos por entre árvores, luzes e carros que sem mais nem menos assustam-se por estarem 4 vultos a percorrerem freneticamente uma estrada que supostamente deveria estar só (nós os 3 não estamos sós, que me deu a luz da vida está connosco). Umas vezes somos brindados com os máximos dos faróis dos carros, noutras apenas nos limitamos a ouvir o “gritar” de outros cães que presos às suas casas não podem desfrutar do manto azul que em dias de céu limpo podemos ainda contemplar os pingos brilhantes que permanecem bem pertinho do limite do céu…são pingos que brilham mas que não precisam de se secarem como a minhas lágrimas…e hoje chorei, não por não poder ver esse manto mas porque não já não me chamam de periquito…

domingo, outubro 07, 2007

A perfeição!

Depois de ter lido um texto num blog sobre o tempo, sobre algo mais que isso, nos meus dedos uma flor nasceu. Cresceu e as pétalas ganharam cor e vivacidade.
A flor irradiou inspiração e como um raio de sol é quente ao ponto de afastar o frio alheio, parei para a ver. Cheirei-a e toquei para ver se era real. Não queria ter nas minhas mãos mais um fruto da minha imaginação…o resultado foi este:

A perfeição é algo incompleto. Nós como pessoas nunca devemos supor que um dia a conseguiremos atingir.
A vida é uma meta a ser alcançada, só assim o tempo tem razão de ser.
Ele existe para que possamos chegar até ele mesmo sabendo que nunca o conseguiremos compreender. Ele nunca será algo que se pode olhar como se fosse uma pessoa que está ao nosso lado, e dizer que estamos certos quando sentimos algo…a perfeição é o limite do oceano que temos dentro de nós…é a maré envolta em tempestades, é a surdez da multidão que acompanha os nossos passos, é a tristeza agarrada à garrafa da felicidade, é a poesia sem palavras, é apenas uma letra desnudada de pressentimentos…

A gravilha que se solta debaixo dos meus pés, o aroma do feno, das rochas e do musgo que imagino são os elementos arrebatados pela minha vida, que tensamente ferem o meu orgulho mordaz, incapaz de sorver o poder que as palavras têm em mim.

Insustentavelmente a minha incapacidade de partilha verte alguns sentimentos que tenho, cede o seu espaço no meu coração a algo especial. Fico-me pela perfeição de algo maior que eu.

Talvez com um declive tenha um ponto de partida. Mesmo sem asas, mesmo sem ser um anjo, mesmo já não sendo uma criança, tenho a capacidade de ter a coragem de chegar ao limite do meu oceano e numas asas imagináveis percorrer o trilho feito de mar e ar, feito de amor e dor, feito de verdades e mentiras, feito de luz porque a escuridão não aparece quando dentro de nós a lâmpada nunca se apaga mesmo quando alguém a tenta desligar…há energia que palpita num espaço contíguo, acerbando a minha capacidade de ir mais além…e porque hoje é Domingo, e por ser daqueles dias que não interessam a ninguém, deixo aqui a música que me ajudou a colmatar o final deste texto…Sigur Rós, a banda islandesa que me dá imagens através de sons, emoções através de melodias, uma realidade mais ficcionada que a história que tento escrevo…

sábado, outubro 06, 2007

Ficar à espera…

Já fiquei à espera de muita coisa. Nunca desesperei por algo, mas hoje é só mais um dia que dou valor ao que me dizem e por já saber como são as coisas, como é que a roldana da vida funciona não ficarei à espera seja do que for. Já sei como são as coisas, sei que ficar à espera que o que me dizem seja uma realidade é o mesmo que contar carneiros quando não tenho sono. Não faço isso, porque o mais provável é que esses carneiros estejam juntamente com as ovelhas negras e sempre me vi como uma, e uma pessoa (eu…) não conta para fins contabilísticos ou será que conta? Desculpem a ironia, às vezes ela é necessária, não basta ter um copo de vinho tinto para o desfrutar, por vezes um pedaço de queijo faz um brilharete no que toca saborear os prazeres da vida…

Agora neste momento que escrevo, estou a pensar se estou mais que lixado ou talvez não. Há coisas na vida que já não merecem a atenção que dou a elas, ou melhor, na minha vida há acontecimentos que mais vale fechar os olhos, tapar os ouvidos e não dizer nada porque ficar à espera é o melhor que faço. É a prova dos nove, o tira teimas, a faúlha que vive no meio das chamas.

Por outro lado não me sinto bem em estar a pensar “no ficar à espera” nesses termos. Acho que sou compreensivo e por isso mesmo sei que a vida tem uma série de voltas a serem percorridas e infelizmente estou incluído nelas. Mesmo não querendo estar nesse patamar da discórdia no que toca ser um interveniente espontâneo, todos nós somos, ou acabamos por ser.
Não há cura para esse mal, não há fuga possível nem escapatória à vista e pensar que a minha imaginação um dia podia estagnar como a água de um poço é o mesmo que escrever com letras garrafais que estava redondamente enganado.

Trá lá lá cantam uns enquanto outros apenas dizem ohhhhh. Não digo nem uma coisa nem outra. O tempo é infinito, é uma caixinha de música que toca sempre que alguém dá à corda. Eu neste momento em que escrevo procuro-a. Sei que quando “publicar” este texto essa caixinha estará a tocar a música de sempre. Quem é que não tem uma?

O karma, o fado, a nostalgia, a preguiça, a destilação que se sofre porque ficar à espera é algo do passado…acreditei em mim mesmo e continuo a viver sem esperar, seja lá o que for que me espera…

sexta-feira, outubro 05, 2007

Colisão

"Senti um frenesim de nuvens e não conseguia me acalmar. Só me imaginava entrar às escondidas em casa e despir-me a cada passo que desse. Entraria no remoinho dos lençóis e dar-lhe-ia o eterno abraço. Sei que ela não iria resmungar, nem se assustar. A minha surpresa talvez tivesse sido daquelas que ela já esteja à espera.

Ao longe ouvi o chiar frenético de uns pneus a rasparem na estrada. Um som violento que abalou o meu coração, fê-lo saltar da caixa onde permanecia resguardado do ruído da noite, auxiliado pelo silêncio que a minha alma sentira até àquele momento. O longe tornou-se perto, e o som exaltado dum carro mais parecia um animal mecânico que passou por mim como se fosse levantar voo para o fim do mundo.
Disse para mim mesmo, para quê ter tanta pressa a uma hora destas.

Dei uma gargalhada afagada por causa dos frémitos contidos na minha garganta. Um outro estrondo arrebenta bem perto de mim. Com a queda das chaves no chão a porta ficou encostada, a pressa fez-me ser imprudente ao ponto do vento estilhaçar o pequeno vidro que no cimo da porta de entrada convida a quem queira, sentir-se no céu, no azul do meu bar.
Merda disse bem alto mas ninguém me ouviu.
Ao longe vagabundos procuravam um bêbado a quem pudessem contar a ladainha do costume, e como sabemos estar com os copos liberta-se uma infinidade de coisas, e a estupidez é uma delas.

Dei mais uma corrida até ao bar. Não me iria preocupar com o vidro em fanicos à porta da entrada. Mesmo sem ele ninguém conseguiria lá entrar, a madeira que estava por detrás do vidro faria a bondade de evitar que mãos alheias fossem mais espertas que cães.
Enquanto corri procurei no bolso esquerdo a chave. Uma luz amarelada ofuscou-me; se o outro carro foi ruído, este era o silêncio. Não tive tempo de evitar ser expelido para o chão, como se uma mola fosse. Do salto no ar, senti apenas as mãos do vento a levantar um pouco a minha gabardina. A queda foi rápida, as costas assentaram que nem uma luva no chão, a cabeça tombou, como se o betão negro fosse a almofada que iria tornar os meus sonhos em realidade.
O carro passou por mim e mergulhou pela noite adentro. Num ápice desvaneceu-se na escuridão da noite…

Senti um líquido quente a tocar-me no pescoço. As minhas mãos foram ao encontro desse desconhecido que afinal era apenas sangue. Gritei, mas ninguém me ouviu, as lágrimas escorreram pela face. Limpei-as com a ferocidade que sentia naquele preciso momento. Passei de uma cara lavada em lágrimas para uma máscara manchada de sangue. O que eram lágrimas, passou a ser manchas de sangue, enquanto este passou a ser lágrimas de vermelho vivo.

Procurei nos bolsos o telemóvel, era a única saída para me ver livre do sítio aonde estava, mas não consegui arranjar forças para levantar as pernas e a cabeça do chão. Parecia que cada segundo perdido era como se alguém estivesse com uma colher de sopa a derramar sangue à volta do meu pescoço. Passei a imaginar rios de sangue a aformosear o negro da estrada.
Já não sentia frio, o calor do sangue era a minha nova companhia, e com ele o meu corpo foi relaxando, os músculos perderam a rigidez que precisavam para me ajudarem a libertar da inacção que me rondava como um abutre.

Agarrei o telemóvel e liguei para a Kitty. A chamada foi parar à caixa de correio. Estava a entrar no desespero alucinante de um sonho, no qual queremos sair de um sítio e não podemos, podemos gritar mas ninguém nos ouve.
Estava parado não contra uma parede, mas colado ao chão.
Tremulamente segurei o telemóvel até não conseguir aguentar mais a pressão de saber que o que apenas consegui dizer à Kitty foi Amo-te. Os olhos encheram-se de água e o zunido que atenuava as dores que sentia na cabeça foi falando comigo…

Não adormeças, não feches os olhos, estúpido ouve-me, não te deixes levar pela calamidade que sentes, não adormeças, ouve-me com atenção, desliga-te da lassidão que te confronta com a queda que deste, não adormeças…estás a ouvir-me, recusa-te a ir ao abraço do silêncio, recusa-te, faz isso por nós, por mim que sou tu e tu que és só meu…não adormeças…

Aos poucos deixei de ouvir a voz interior, estava longe, como tudo estava para mim na altura em que as minhas pálpebras passaram a ser forradas a ferro, e o peso delas fez com que eu as fechasse.
Diante de mim vi a porta do bar aberta. Ia e vinha consoante a vontade do vento e os vidros que permaneciam no chão estavam estáticos como a minha vida estava naquele momento.
A boca deixou de saborear o sangue que de vez em quando saltava fora dela. Sentia-me triste, não por estar a perder-me algures no desconhecido, mas porque a voz que falava comigo tinha-se calado e com o seu não adormeças fiz o contrário, fechei os olhos, e desliguei-me do mundo."

Por sentir que a minha imaginação está prestes a estagnar, e por saber que a inspiração é fortuita, que vem e vai quando menos esperamos, e por não querer fazer deste blog um espaço mais pessoal do que já é, resolvi partilhar um excerto de uma parte da história que ando a escrever.

Não partilharei o historial das 10 personagens que neste momento habitam a história. Um blog não será a casa delas.
Esta que acabou de falar, que contou o que sentia sendo nada mais que o resultado de uma colisão ou um desastre como queiram, foi um embate emocional que no futuro terá consequências para a pessoa amada.

Como tudo na vida há sentimentos que existem porque há algo mais que amar alguém e que viver é o mesmo que sobreviver. Então posso vos dizer que essa personagem não morrerá.
É a personagem mais simples, mais simplória, mais honesta, mais apaixonada, mais realista, mais empenhada em fazer do seu sonho uma realidade…talvez não falará tanto como as restantes, mas quando abrir os olhos na cama de um hospital terá à sua frente a resposta que receava não ser a que iria ouvir.

Como tudo na vida é mais que uma colisão de sentimentos, esta personagem é o equilíbrio emocional, e como gosto de complicar o que já por si é um labirinto, a tal máquina mecânica transformará a sua vida e a da Kitty…

Obrigado por lerem este pedaço de mim…