"Senti um frenesim de nuvens e não conseguia me acalmar. Só me imaginava entrar às escondidas em casa e despir-me a cada passo que desse. Entraria no remoinho dos lençóis e dar-lhe-ia o eterno abraço. Sei que ela não iria resmungar, nem se assustar. A minha surpresa talvez tivesse sido daquelas que ela já esteja à espera.
Ao longe ouvi o chiar frenético de uns pneus a rasparem na estrada. Um som violento que abalou o meu coração, fê-lo saltar da caixa onde permanecia resguardado do ruído da noite, auxiliado pelo silêncio que a minha alma sentira até àquele momento. O longe tornou-se perto, e o som exaltado dum carro mais parecia um animal mecânico que passou por mim como se fosse levantar voo para o fim do mundo.
Disse para mim mesmo, para quê ter tanta pressa a uma hora destas.
Dei uma gargalhada afagada por causa dos frémitos contidos na minha garganta. Um outro estrondo arrebenta bem perto de mim. Com a queda das chaves no chão a porta ficou encostada, a pressa fez-me ser imprudente ao ponto do vento estilhaçar o pequeno vidro que no cimo da porta de entrada convida a quem queira, sentir-se no céu, no azul do meu bar.
Merda disse bem alto mas ninguém me ouviu.
Ao longe vagabundos procuravam um bêbado a quem pudessem contar a ladainha do costume, e como sabemos estar com os copos liberta-se uma infinidade de coisas, e a estupidez é uma delas.
Dei mais uma corrida até ao bar. Não me iria preocupar com o vidro em fanicos à porta da entrada. Mesmo sem ele ninguém conseguiria lá entrar, a madeira que estava por detrás do vidro faria a bondade de evitar que mãos alheias fossem mais espertas que cães.
Enquanto corri procurei no bolso esquerdo a chave. Uma luz amarelada ofuscou-me; se o outro carro foi ruído, este era o silêncio. Não tive tempo de evitar ser expelido para o chão, como se uma mola fosse. Do salto no ar, senti apenas as mãos do vento a levantar um pouco a minha gabardina. A queda foi rápida, as costas assentaram que nem uma luva no chão, a cabeça tombou, como se o betão negro fosse a almofada que iria tornar os meus sonhos em realidade.
O carro passou por mim e mergulhou pela noite adentro. Num ápice desvaneceu-se na escuridão da noite…
Senti um líquido quente a tocar-me no pescoço. As minhas mãos foram ao encontro desse desconhecido que afinal era apenas sangue. Gritei, mas ninguém me ouviu, as lágrimas escorreram pela face. Limpei-as com a ferocidade que sentia naquele preciso momento. Passei de uma cara lavada em lágrimas para uma máscara manchada de sangue. O que eram lágrimas, passou a ser manchas de sangue, enquanto este passou a ser lágrimas de vermelho vivo.
Procurei nos bolsos o telemóvel, era a única saída para me ver livre do sítio aonde estava, mas não consegui arranjar forças para levantar as pernas e a cabeça do chão. Parecia que cada segundo perdido era como se alguém estivesse com uma colher de sopa a derramar sangue à volta do meu pescoço. Passei a imaginar rios de sangue a aformosear o negro da estrada.
Já não sentia frio, o calor do sangue era a minha nova companhia, e com ele o meu corpo foi relaxando, os músculos perderam a rigidez que precisavam para me ajudarem a libertar da inacção que me rondava como um abutre.
Agarrei o telemóvel e liguei para a Kitty. A chamada foi parar à caixa de correio. Estava a entrar no desespero alucinante de um sonho, no qual queremos sair de um sítio e não podemos, podemos gritar mas ninguém nos ouve.
Estava parado não contra uma parede, mas colado ao chão.
Tremulamente segurei o telemóvel até não conseguir aguentar mais a pressão de saber que o que apenas consegui dizer à Kitty foi Amo-te. Os olhos encheram-se de água e o zunido que atenuava as dores que sentia na cabeça foi falando comigo…
Não adormeças, não feches os olhos, estúpido ouve-me, não te deixes levar pela calamidade que sentes, não adormeças, ouve-me com atenção, desliga-te da lassidão que te confronta com a queda que deste, não adormeças…estás a ouvir-me, recusa-te a ir ao abraço do silêncio, recusa-te, faz isso por nós, por mim que sou tu e tu que és só meu…não adormeças…
Aos poucos deixei de ouvir a voz interior, estava longe, como tudo estava para mim na altura em que as minhas pálpebras passaram a ser forradas a ferro, e o peso delas fez com que eu as fechasse.
Diante de mim vi a porta do bar aberta. Ia e vinha consoante a vontade do vento e os vidros que permaneciam no chão estavam estáticos como a minha vida estava naquele momento.
A boca deixou de saborear o sangue que de vez em quando saltava fora dela. Sentia-me triste, não por estar a perder-me algures no desconhecido, mas porque a voz que falava comigo tinha-se calado e com o seu não adormeças fiz o contrário, fechei os olhos, e desliguei-me do mundo."
Por sentir que a minha imaginação está prestes a estagnar, e por saber que a inspiração é fortuita, que vem e vai quando menos esperamos, e por não querer fazer deste blog um espaço mais pessoal do que já é, resolvi partilhar um excerto de uma parte da história que ando a escrever.
Não partilharei o historial das 10 personagens que neste momento habitam a história. Um blog não será a casa delas.
Esta que acabou de falar, que contou o que sentia sendo nada mais que o resultado de uma colisão ou um desastre como queiram, foi um embate emocional que no futuro terá consequências para a pessoa amada.
Como tudo na vida há sentimentos que existem porque há algo mais que amar alguém e que viver é o mesmo que sobreviver. Então posso vos dizer que essa personagem não morrerá.
É a personagem mais simples, mais simplória, mais honesta, mais apaixonada, mais realista, mais empenhada em fazer do seu sonho uma realidade…talvez não falará tanto como as restantes, mas quando abrir os olhos na cama de um hospital terá à sua frente a resposta que receava não ser a que iria ouvir.
Como tudo na vida é mais que uma colisão de sentimentos, esta personagem é o equilíbrio emocional, e como gosto de complicar o que já por si é um labirinto, a tal máquina mecânica transformará a sua vida e a da Kitty…
Obrigado por lerem este pedaço de mim…