sexta-feira, outubro 26, 2007

Há dias assim…

Porque há dias que ficamos parvos com o que está à nossa volta, e porque há dias em que as palavras são escassas, são migalhas ao pé do que nos rodeia e não há muito a dizer.

Talvez a sensatez que falta a algumas pessoas, seja a grande culpada. Não há julgamento que faça esse tipo de pessoas penarem nos actos que cometem, não há culpa que seja sentida, apenas desculpas e mais desculpas.

Porque há dias em que julgamos termos visto um pouco de tudo, em que já sabemos que a noite está a chegar e que amanhã é outro dia, não nos podemos esquecer que a vida de alguém é tão complicada como a nossa.

Porque nem sempre temos as palavras certas para dizermos a alguém especial ou alguém que nos ensina algo, há sempre aquela sensação que tudo ficará bem.

Por vezes temos que nos mentalizar que mais um pensamento positivo poderá fazer a diferença!

Este texto é dedicado a ti…m.a.…

"Good Day" da Jewel

sábado, outubro 13, 2007

Pushing Daisies!!!

…como é que eu posso transmitir através de palavras o que esta série tem de tão especial.
Quem viu o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin” então já tem uma vaga ideia. Como li algures neste mundo cibernético “It’s Amelie for TV”!

A história é simples, não tem nada de novo apenas tem belos momentos de televisão, pequenas coisas que a mim não me passam ao lado e fazem de um mero produto televisivo algo mais.

Há olhares mágicos, gestos doces, diálogos bem escritos e cenas bem filmadas como podem ver nos vídeos que deixo aqui.

Aproveito e deixo também cenas de Amélie porque as coisas belas são para serem vistas mais que uma vez…

Espero que gostem :-)



sexta-feira, outubro 12, 2007

Manto Azul

Há dias em que saio à rua e em casa deixo os meus problemas e sigo por ruelas com uma trela nas mãos.
Com o coração a palpitar sob mim tenho um manto azul com pequenos pingos brilhantes. É o pano descoberto, a pena passada a ferro, o prego sem martelo…é a noite que me ilumina pelas caminhadas que nas noites de céu limpo dou. Dá-me acendalhas para usar, fósforos para queimar, lenha para acender e motivos para pegar neles num carrinho de bebé e ter coragem para olhar bem para a casa abandonada que vejo sempre que por aquela ruela passo.

A casa é pequena, tem uma garagem igualmente abandonada às ervas e às trepadeiras. Confesso que tenho receio de olhar para lá e ver numa janela tapada com um quadrado enegrecido de madeira uns olhos brilhantes, ou ouça um sussurrar vindo do nada.
Uma vez passei por lá e concentrei-me no som que o meu cão fazia. O seu arfar galopante, o seu rabo voluptuoso que dá o ar da sua graça sempre que pata atrás de pata procura sempre um poste para alçar a perna são distracções que abraço sempre que para o Shape olho. O meu cão…é ele que espera por mim quando chego a casa, é ele quem me segue e sem pedir licença entra no meu quarto.

Mas como um é pouco não posso deixar de referir que temos também nas nossas caminhadas a presença da magalona mezeruca e esfusiante Chantal. Ela é um mimo de cadela, é independente, mas é ela quem me dá mais beijinhos, é ela quem espera que se ponha um lençol no sofá para que possa dormir em paz, é ela que me dá a patinha sempre que peço, é ela que tem mais medo de trovoada, é ela a quem eu beijo sabendo sempre que com sorte terei não um beijo de volta, mas sim umas valentes lambidelas lambuzadas …sim o Shape e a Chantal, os meus verdadeiros companheiros das caminhadas…

Sob um manto azul, a noite perde-se e nela nós avançamos por entre árvores, luzes e carros que sem mais nem menos assustam-se por estarem 4 vultos a percorrerem freneticamente uma estrada que supostamente deveria estar só (nós os 3 não estamos sós, que me deu a luz da vida está connosco). Umas vezes somos brindados com os máximos dos faróis dos carros, noutras apenas nos limitamos a ouvir o “gritar” de outros cães que presos às suas casas não podem desfrutar do manto azul que em dias de céu limpo podemos ainda contemplar os pingos brilhantes que permanecem bem pertinho do limite do céu…são pingos que brilham mas que não precisam de se secarem como a minhas lágrimas…e hoje chorei, não por não poder ver esse manto mas porque não já não me chamam de periquito…

domingo, outubro 07, 2007

A perfeição!

Depois de ter lido um texto num blog sobre o tempo, sobre algo mais que isso, nos meus dedos uma flor nasceu. Cresceu e as pétalas ganharam cor e vivacidade.
A flor irradiou inspiração e como um raio de sol é quente ao ponto de afastar o frio alheio, parei para a ver. Cheirei-a e toquei para ver se era real. Não queria ter nas minhas mãos mais um fruto da minha imaginação…o resultado foi este:

A perfeição é algo incompleto. Nós como pessoas nunca devemos supor que um dia a conseguiremos atingir.
A vida é uma meta a ser alcançada, só assim o tempo tem razão de ser.
Ele existe para que possamos chegar até ele mesmo sabendo que nunca o conseguiremos compreender. Ele nunca será algo que se pode olhar como se fosse uma pessoa que está ao nosso lado, e dizer que estamos certos quando sentimos algo…a perfeição é o limite do oceano que temos dentro de nós…é a maré envolta em tempestades, é a surdez da multidão que acompanha os nossos passos, é a tristeza agarrada à garrafa da felicidade, é a poesia sem palavras, é apenas uma letra desnudada de pressentimentos…

A gravilha que se solta debaixo dos meus pés, o aroma do feno, das rochas e do musgo que imagino são os elementos arrebatados pela minha vida, que tensamente ferem o meu orgulho mordaz, incapaz de sorver o poder que as palavras têm em mim.

Insustentavelmente a minha incapacidade de partilha verte alguns sentimentos que tenho, cede o seu espaço no meu coração a algo especial. Fico-me pela perfeição de algo maior que eu.

Talvez com um declive tenha um ponto de partida. Mesmo sem asas, mesmo sem ser um anjo, mesmo já não sendo uma criança, tenho a capacidade de ter a coragem de chegar ao limite do meu oceano e numas asas imagináveis percorrer o trilho feito de mar e ar, feito de amor e dor, feito de verdades e mentiras, feito de luz porque a escuridão não aparece quando dentro de nós a lâmpada nunca se apaga mesmo quando alguém a tenta desligar…há energia que palpita num espaço contíguo, acerbando a minha capacidade de ir mais além…e porque hoje é Domingo, e por ser daqueles dias que não interessam a ninguém, deixo aqui a música que me ajudou a colmatar o final deste texto…Sigur Rós, a banda islandesa que me dá imagens através de sons, emoções através de melodias, uma realidade mais ficcionada que a história que tento escrevo…

sábado, outubro 06, 2007

Ficar à espera…

Já fiquei à espera de muita coisa. Nunca desesperei por algo, mas hoje é só mais um dia que dou valor ao que me dizem e por já saber como são as coisas, como é que a roldana da vida funciona não ficarei à espera seja do que for. Já sei como são as coisas, sei que ficar à espera que o que me dizem seja uma realidade é o mesmo que contar carneiros quando não tenho sono. Não faço isso, porque o mais provável é que esses carneiros estejam juntamente com as ovelhas negras e sempre me vi como uma, e uma pessoa (eu…) não conta para fins contabilísticos ou será que conta? Desculpem a ironia, às vezes ela é necessária, não basta ter um copo de vinho tinto para o desfrutar, por vezes um pedaço de queijo faz um brilharete no que toca saborear os prazeres da vida…

Agora neste momento que escrevo, estou a pensar se estou mais que lixado ou talvez não. Há coisas na vida que já não merecem a atenção que dou a elas, ou melhor, na minha vida há acontecimentos que mais vale fechar os olhos, tapar os ouvidos e não dizer nada porque ficar à espera é o melhor que faço. É a prova dos nove, o tira teimas, a faúlha que vive no meio das chamas.

Por outro lado não me sinto bem em estar a pensar “no ficar à espera” nesses termos. Acho que sou compreensivo e por isso mesmo sei que a vida tem uma série de voltas a serem percorridas e infelizmente estou incluído nelas. Mesmo não querendo estar nesse patamar da discórdia no que toca ser um interveniente espontâneo, todos nós somos, ou acabamos por ser.
Não há cura para esse mal, não há fuga possível nem escapatória à vista e pensar que a minha imaginação um dia podia estagnar como a água de um poço é o mesmo que escrever com letras garrafais que estava redondamente enganado.

Trá lá lá cantam uns enquanto outros apenas dizem ohhhhh. Não digo nem uma coisa nem outra. O tempo é infinito, é uma caixinha de música que toca sempre que alguém dá à corda. Eu neste momento em que escrevo procuro-a. Sei que quando “publicar” este texto essa caixinha estará a tocar a música de sempre. Quem é que não tem uma?

O karma, o fado, a nostalgia, a preguiça, a destilação que se sofre porque ficar à espera é algo do passado…acreditei em mim mesmo e continuo a viver sem esperar, seja lá o que for que me espera…

sexta-feira, outubro 05, 2007

Colisão

"Senti um frenesim de nuvens e não conseguia me acalmar. Só me imaginava entrar às escondidas em casa e despir-me a cada passo que desse. Entraria no remoinho dos lençóis e dar-lhe-ia o eterno abraço. Sei que ela não iria resmungar, nem se assustar. A minha surpresa talvez tivesse sido daquelas que ela já esteja à espera.

Ao longe ouvi o chiar frenético de uns pneus a rasparem na estrada. Um som violento que abalou o meu coração, fê-lo saltar da caixa onde permanecia resguardado do ruído da noite, auxiliado pelo silêncio que a minha alma sentira até àquele momento. O longe tornou-se perto, e o som exaltado dum carro mais parecia um animal mecânico que passou por mim como se fosse levantar voo para o fim do mundo.
Disse para mim mesmo, para quê ter tanta pressa a uma hora destas.

Dei uma gargalhada afagada por causa dos frémitos contidos na minha garganta. Um outro estrondo arrebenta bem perto de mim. Com a queda das chaves no chão a porta ficou encostada, a pressa fez-me ser imprudente ao ponto do vento estilhaçar o pequeno vidro que no cimo da porta de entrada convida a quem queira, sentir-se no céu, no azul do meu bar.
Merda disse bem alto mas ninguém me ouviu.
Ao longe vagabundos procuravam um bêbado a quem pudessem contar a ladainha do costume, e como sabemos estar com os copos liberta-se uma infinidade de coisas, e a estupidez é uma delas.

Dei mais uma corrida até ao bar. Não me iria preocupar com o vidro em fanicos à porta da entrada. Mesmo sem ele ninguém conseguiria lá entrar, a madeira que estava por detrás do vidro faria a bondade de evitar que mãos alheias fossem mais espertas que cães.
Enquanto corri procurei no bolso esquerdo a chave. Uma luz amarelada ofuscou-me; se o outro carro foi ruído, este era o silêncio. Não tive tempo de evitar ser expelido para o chão, como se uma mola fosse. Do salto no ar, senti apenas as mãos do vento a levantar um pouco a minha gabardina. A queda foi rápida, as costas assentaram que nem uma luva no chão, a cabeça tombou, como se o betão negro fosse a almofada que iria tornar os meus sonhos em realidade.
O carro passou por mim e mergulhou pela noite adentro. Num ápice desvaneceu-se na escuridão da noite…

Senti um líquido quente a tocar-me no pescoço. As minhas mãos foram ao encontro desse desconhecido que afinal era apenas sangue. Gritei, mas ninguém me ouviu, as lágrimas escorreram pela face. Limpei-as com a ferocidade que sentia naquele preciso momento. Passei de uma cara lavada em lágrimas para uma máscara manchada de sangue. O que eram lágrimas, passou a ser manchas de sangue, enquanto este passou a ser lágrimas de vermelho vivo.

Procurei nos bolsos o telemóvel, era a única saída para me ver livre do sítio aonde estava, mas não consegui arranjar forças para levantar as pernas e a cabeça do chão. Parecia que cada segundo perdido era como se alguém estivesse com uma colher de sopa a derramar sangue à volta do meu pescoço. Passei a imaginar rios de sangue a aformosear o negro da estrada.
Já não sentia frio, o calor do sangue era a minha nova companhia, e com ele o meu corpo foi relaxando, os músculos perderam a rigidez que precisavam para me ajudarem a libertar da inacção que me rondava como um abutre.

Agarrei o telemóvel e liguei para a Kitty. A chamada foi parar à caixa de correio. Estava a entrar no desespero alucinante de um sonho, no qual queremos sair de um sítio e não podemos, podemos gritar mas ninguém nos ouve.
Estava parado não contra uma parede, mas colado ao chão.
Tremulamente segurei o telemóvel até não conseguir aguentar mais a pressão de saber que o que apenas consegui dizer à Kitty foi Amo-te. Os olhos encheram-se de água e o zunido que atenuava as dores que sentia na cabeça foi falando comigo…

Não adormeças, não feches os olhos, estúpido ouve-me, não te deixes levar pela calamidade que sentes, não adormeças, ouve-me com atenção, desliga-te da lassidão que te confronta com a queda que deste, não adormeças…estás a ouvir-me, recusa-te a ir ao abraço do silêncio, recusa-te, faz isso por nós, por mim que sou tu e tu que és só meu…não adormeças…

Aos poucos deixei de ouvir a voz interior, estava longe, como tudo estava para mim na altura em que as minhas pálpebras passaram a ser forradas a ferro, e o peso delas fez com que eu as fechasse.
Diante de mim vi a porta do bar aberta. Ia e vinha consoante a vontade do vento e os vidros que permaneciam no chão estavam estáticos como a minha vida estava naquele momento.
A boca deixou de saborear o sangue que de vez em quando saltava fora dela. Sentia-me triste, não por estar a perder-me algures no desconhecido, mas porque a voz que falava comigo tinha-se calado e com o seu não adormeças fiz o contrário, fechei os olhos, e desliguei-me do mundo."

Por sentir que a minha imaginação está prestes a estagnar, e por saber que a inspiração é fortuita, que vem e vai quando menos esperamos, e por não querer fazer deste blog um espaço mais pessoal do que já é, resolvi partilhar um excerto de uma parte da história que ando a escrever.

Não partilharei o historial das 10 personagens que neste momento habitam a história. Um blog não será a casa delas.
Esta que acabou de falar, que contou o que sentia sendo nada mais que o resultado de uma colisão ou um desastre como queiram, foi um embate emocional que no futuro terá consequências para a pessoa amada.

Como tudo na vida há sentimentos que existem porque há algo mais que amar alguém e que viver é o mesmo que sobreviver. Então posso vos dizer que essa personagem não morrerá.
É a personagem mais simples, mais simplória, mais honesta, mais apaixonada, mais realista, mais empenhada em fazer do seu sonho uma realidade…talvez não falará tanto como as restantes, mas quando abrir os olhos na cama de um hospital terá à sua frente a resposta que receava não ser a que iria ouvir.

Como tudo na vida é mais que uma colisão de sentimentos, esta personagem é o equilíbrio emocional, e como gosto de complicar o que já por si é um labirinto, a tal máquina mecânica transformará a sua vida e a da Kitty…

Obrigado por lerem este pedaço de mim…

sábado, setembro 29, 2007

O Tombo

Quando sustenta-se a frivolidade que nos rodeia, o acaso faz-nos pensar. Sentamo-nos num calhau à beira-mar, debaixo de uma macieira, à sombra de uma palmeira ou ao relento com o vento a servir de cantadeiro.

Parar no tempo, ficar na sustentabilidade da perdição que os pensamentos nos dão, é a arma com a qual se pode combater a inércia incessante nas fissuras do nosso coração. É o que faço, porque sinto, porque digo, porque conto, porque ouço, porque reclamo, porque suspiro, porque choro, porque rio, porque gorgolejo, porque visualizo, porque dou, porque recebo tudo o que o mais insignificante a vida me possa oferecer numa bandeja de prata, de ouro, de pedra ou de marfim…sou o tombo que cai, que olha e que divaga porque às vezes é a única solução…

Não há ninguém que saiba o que vai dentro de nós, ninguém é capaz de imaginar a cidade que está a circular nos quarteirões do nosso coração, ninguém sabe que por vezes basta uma palavra para parar o trânsito, que basta um olhar para fazer o sol encontrar-se com a lua, que basta um piscar de olhos para o brilho das estrelas ser o nosso, ninguém sabe que basta um toque para que “ninguém” ser mais que “alguém”.

Quantas vezes uma floresta grita por algo e o silêncio é a sinfonia do vento, o caiar da chuva e o bocejar do granizo? Quantas vezes queremos alguém perto de nós e o que temos é apenas o buraco de uma fechadura. Não nos serve de nada, não é um remendo que se possa coser, um botão que se possa abotoar, uma agulha que espera ansiosamente uma linha..
Às vezes consigo isso, outras é o esquecimento ganhar asas, voa para outros destinos que não o meu…

A minha voz é feita de sons como de qualquer pessoa, é corrosiva quando a fazem trepar as trepadeira que surgem do nada, é ilusória quando tem receios, é figurada quando a figura é mais que a própria realidade, é o acaso a ser mais que uma coincidência, é a porta a fechar-se quando deixo a chave para que alguém a abra…

Sou o tombo que cai, que olha e que divaga porque às vezes è a única solução…

Nota: Esta inspiração surgiu da seguinte frase: "O carácter é como a árvore que tomba na floresta - ninguém sabe, a não ser que a oiça!..." e por não saber quem é o autor, mas por saber quem me deu a conhecer, por ter um significado, por ser daquelas frases que têm mais do que parece e porque há coisas que não se escrevem nem se fala, resolvi pegar nela como se fosse um filho meu, e dar a atenção que é merecida. Não é todos os dias que alguém nos define através de uma frase…porque será que me disseram isso? Eu sei melhor que ninguém…sou o tombo que cai, que olha e que sente, que divaga e que torna a olhar, que sente e desespera por tornar a sentir, porque às vezes além de ser a única solução é a forma que tenho para que alguém me oiça…

sábado, setembro 22, 2007

Ouço apenas o que quero?

Não é normal as pessoas tirarem conclusões precipitadas que só fazem com que se caminhe por um atalho que não as levará até aonde estamos?

Não é que eu tenha caminhado muito para esses lados, mas sei que há quem o faça e não saiba aonde estou.

Fica-se com uma ideia que quem está a falar, quem escreve ou quem ouve nem sempre está sintonizado na mesma “rádio” que nós. Posso dizer que já senti na pele mais que uma vez esse fenómeno! Digo isso porque acredito que não seja um problema de só uma pessoa, ou um problema que esteja isolado em 4 paredes, confinado a uma resolução solitária que acabará num destino fortuito.

Podemos estar enganados em relação a uma determinada coisa, mas é preciso soltar as amarras que nos prendem.

Talvez um dia possa dizer a alguém que sinto a sua falta, e caso seja realmente necessário serei capaz de afirmar que apenas ouço o que quero. Mas no fundo terei que mentir, sei que nem sempre o que aparentamos aos outros é o que somos.

Às vezes é preciso desfragmentar o que sentimos, aí talvez é mais fácil compreender o porquê, as razões, os atalhos que fazem com que sejamos o objecto de análise. Estou consciente disso e portanto…

A realidade é uma selva, é medonha e enganadora.
Talvez por isso recorre-se sempre à alternativa de nos empolgarmos quando há razões para isso, e quando se pode ficar no descoro sentimental faz-se! Não por alguém nos querer magoar, mas porque nos magoaram e ninguém tem que passar pelo mesmo.

("Stay" da Lisa Loeb faz parte do meu báu de boas músicas, e essa já tem mais que uma década...o tempo voa...)


sexta-feira, setembro 21, 2007

Memória

As memórias são como uma natureza-morta pintada por dez estudantes de arte diferentes: alguns vão basear-se no azul; outros no vermelho; alguns serão fortes como Picasso e outros sumptuosos como Rembrandt; alguns serão próximos e outros distantes. As recordações estão nos olhos do observador; não há duas que lado a lado sejam exactamente iguais.
Jodi Picoult “Memórias Esquecidas”


Se a minha memória pudesse ser uma tela, não me importava que cada um dos 10 estudantes de arte pegasse nela e que criassem algo excepcional. As cores seleccionadas não seriam questionadas, os tons e os efeitos muito menos.
A distância e a proximidade seriam uma meta que eles teriam que chegar lá. Desde que fossem suficientemente fortes para não abandonarem a tela em branco, posso garantir que o resultado final seria 10 memórias distintas: a da infância, a da paixão, a da primeira dor no peito, a da perda, a dos sonhos, a da tristeza, a da nostalgia, a dos amigos, a dos estudos e por fim a da família.

Com cada uma dessas telas teria uma história…as imagens por vezes distorcem a realidade, mas há as que iluminam o que está obscurecido pelas dúvidas, pela amargura, pela tempestuosidade, pelas desilusões e pela agonia.

Há dias assim em que o verão está prestes a chegar ao fim e o Outono está quase a chegar. É como estar a ver alguém a pintar e esperar ansiosamente pelo resultado, que logo à partida estará em branco.
Tenho 10 telas por pintar! Quem se atreve a ser o primeiro estudante de arte?

Como diz a música…com cada batimento do coração não olharei para trás. O problema é esse, mesmo quando não se quer algo, mesmo quando estamos mais que resignados ao que está à nossa espera, a nossa memória é uma tela em branco. Apenas temos que a preencher progressivamente e não de forma abrupta. É preciso olhar vezes sem conta até termos algo que nos fala? Temos mas é que olhar vezes sem conta para essa tela, corrigir os contornos mal feitos com as cores vivas e desbastar o ruído espalhado por alguns centímetros de pano.

A perfeição não é algo que se possa exigir a alguém, não podemos fazer isso a nós próprios.

terça-feira, setembro 18, 2007

Mas o que escondes de mim?

Por vezes há coisas que se lêem que ficam na nossa memória.
A última foi a seguinte:

Mas o que escondes de mim?
A memória dos meus ossos a voarem para as tuas mãos.
Anne Sexton, The Surgeon


Um dia terei nas minhas mãos os ossos de alguém, não me interessa se estarão intactos, em cinza ou quebrados, porque a memória é algo tão fugaz quanto as mentiras que se dizem, e as verdades que se oculta.

Agora pergunto o seguinte:
O que é que tens para me contar?
Nada!

Porque será? Será que as minhas mãos estão atadas e só têm direito a serem presenteadas com um fio de corda, velho e mal cheiroso?

Ao menos uma vez na vida a poeira do deserto será mais que isso, e o céu será o mar onde poderei um dia banhar-se e com as nuvens poderei esfregar-me nelas como se uma toalha fossem…quando me perguntarem o que escondo, estarei limpo e aí e minha memória será outra que não ossos, esses até os cães ladram uns com os outros para terem direito a um.