Já fiquei à espera de muita coisa. Nunca desesperei por algo, mas hoje é só mais um dia que dou valor ao que me dizem e por já saber como são as coisas, como é que a roldana da vida funciona não ficarei à espera seja do que for. Já sei como são as coisas, sei que ficar à espera que o que me dizem seja uma realidade é o mesmo que contar carneiros quando não tenho sono. Não faço isso, porque o mais provável é que esses carneiros estejam juntamente com as ovelhas negras e sempre me vi como uma, e uma pessoa (eu…) não conta para fins contabilísticos ou será que conta? Desculpem a ironia, às vezes ela é necessária, não basta ter um copo de vinho tinto para o desfrutar, por vezes um pedaço de queijo faz um brilharete no que toca saborear os prazeres da vida…
Agora neste momento que escrevo, estou a pensar se estou mais que lixado ou talvez não. Há coisas na vida que já não merecem a atenção que dou a elas, ou melhor, na minha vida há acontecimentos que mais vale fechar os olhos, tapar os ouvidos e não dizer nada porque ficar à espera é o melhor que faço. É a prova dos nove, o tira teimas, a faúlha que vive no meio das chamas.
Por outro lado não me sinto bem em estar a pensar “no ficar à espera” nesses termos. Acho que sou compreensivo e por isso mesmo sei que a vida tem uma série de voltas a serem percorridas e infelizmente estou incluído nelas. Mesmo não querendo estar nesse patamar da discórdia no que toca ser um interveniente espontâneo, todos nós somos, ou acabamos por ser. Não há cura para esse mal, não há fuga possível nem escapatória à vista e pensar que a minha imaginação um dia podia estagnar como a água de um poço é o mesmo que escrever com letras garrafais que estava redondamente enganado.
Trá lá lá cantam uns enquanto outros apenas dizem ohhhhh. Não digo nem uma coisa nem outra. O tempo é infinito, é uma caixinha de música que toca sempre que alguém dá à corda. Eu neste momento em que escrevo procuro-a. Sei que quando “publicar” este texto essa caixinha estará a tocar a música de sempre. Quem é que não tem uma?
O karma, o fado, a nostalgia, a preguiça, a destilação que se sofre porque ficar à espera é algo do passado…acreditei em mim mesmo e continuo a viver sem esperar, seja lá o que for que me espera…
"Senti um frenesim de nuvens e não conseguia me acalmar. Só me imaginava entrar às escondidas em casa e despir-me a cada passo que desse. Entraria no remoinho dos lençóis e dar-lhe-ia o eterno abraço. Sei que ela não iria resmungar, nem se assustar. A minha surpresa talvez tivesse sido daquelas que ela já esteja à espera.
Ao longe ouvi o chiar frenético de uns pneus a rasparem na estrada. Um som violento que abalou o meu coração, fê-lo saltar da caixa onde permanecia resguardado do ruído da noite, auxiliado pelo silêncio que a minha alma sentira até àquele momento. O longe tornou-se perto, e o som exaltado dum carro mais parecia um animal mecânico que passou por mim como se fosse levantar voo para o fim do mundo. Disse para mim mesmo, para quê ter tanta pressa a uma hora destas.
Dei uma gargalhada afagada por causa dos frémitos contidos na minha garganta. Um outro estrondo arrebenta bem perto de mim. Com a queda das chaves no chão a porta ficou encostada, a pressa fez-me ser imprudente ao ponto do vento estilhaçar o pequeno vidro que no cimo da porta de entrada convida a quem queira, sentir-se no céu, no azul do meu bar.
Merda disse bem alto mas ninguém me ouviu. Ao longe vagabundos procuravam um bêbado a quem pudessem contar a ladainha do costume, e como sabemos estar com os copos liberta-se uma infinidade de coisas, e a estupidez é uma delas.
Dei mais uma corrida até ao bar. Não me iria preocupar com o vidro em fanicos à porta da entrada. Mesmo sem ele ninguém conseguiria lá entrar, a madeira que estava por detrás do vidro faria a bondade de evitar que mãos alheias fossem mais espertas que cães. Enquanto corri procurei no bolso esquerdo a chave. Uma luz amarelada ofuscou-me; se o outro carro foi ruído, este era o silêncio. Não tive tempo de evitar ser expelido para o chão, como se uma mola fosse. Do salto no ar, senti apenas as mãos do vento a levantar um pouco a minha gabardina. A queda foi rápida, as costas assentaram que nem uma luva no chão, a cabeça tombou, como se o betão negro fosse a almofada que iria tornar os meus sonhos em realidade. O carro passou por mim e mergulhou pela noite adentro. Num ápice desvaneceu-se na escuridão da noite…
Senti um líquido quente a tocar-me no pescoço. As minhas mãos foram ao encontro desse desconhecido que afinal era apenas sangue. Gritei, mas ninguém me ouviu, as lágrimas escorreram pela face. Limpei-as com a ferocidade que sentia naquele preciso momento. Passei de uma cara lavada em lágrimas para uma máscara manchada de sangue. O que eram lágrimas, passou a ser manchas de sangue, enquanto este passou a ser lágrimas de vermelho vivo.
Procurei nos bolsos o telemóvel, era a única saída para me ver livre do sítio aonde estava, mas não consegui arranjar forças para levantar as pernas e a cabeça do chão. Parecia que cada segundo perdido era como se alguém estivesse com uma colher de sopa a derramar sangue à volta do meu pescoço. Passei a imaginar rios de sangue a aformosear o negro da estrada. Já não sentia frio, o calor do sangue era a minha nova companhia, e com ele o meu corpo foi relaxando, os músculos perderam a rigidez que precisavam para me ajudarem a libertar da inacção que me rondava como um abutre.
Agarrei o telemóvel e liguei para a Kitty. A chamada foi parar à caixa de correio. Estava a entrar no desespero alucinante de um sonho, no qual queremos sair de um sítio e não podemos, podemos gritar mas ninguém nos ouve. Estava parado não contra uma parede, mas colado ao chão. Tremulamente segurei o telemóvel até não conseguir aguentar mais a pressão de saber que o que apenas consegui dizer à Kitty foi Amo-te. Os olhos encheram-se de água e o zunido que atenuava as dores que sentia na cabeça foi falando comigo…
Não adormeças, não feches os olhos, estúpido ouve-me, não te deixes levar pela calamidade que sentes, não adormeças, ouve-me com atenção, desliga-te da lassidão que te confronta com a queda que deste, não adormeças…estás a ouvir-me, recusa-te a ir ao abraço do silêncio, recusa-te, faz isso por nós, por mim que sou tu e tu que és só meu…não adormeças…
Aos poucos deixei de ouvir a voz interior, estava longe, como tudo estava para mim na altura em que as minhas pálpebras passaram a ser forradas a ferro, e o peso delas fez com que eu as fechasse. Diante de mim vi a porta do bar aberta. Ia e vinha consoante a vontade do vento e os vidros que permaneciam no chão estavam estáticos como a minha vida estava naquele momento. A boca deixou de saborear o sangue que de vez em quando saltava fora dela. Sentia-me triste, não por estar a perder-me algures no desconhecido, mas porque a voz que falava comigo tinha-se calado e com o seu não adormeças fiz o contrário, fechei os olhos, e desliguei-me do mundo."
Por sentir que a minha imaginação está prestes a estagnar, e por saber que a inspiração é fortuita, que vem e vai quando menos esperamos, e por não querer fazer deste blog um espaço mais pessoal do que já é, resolvi partilhar um excerto de uma parte da história que ando a escrever.
Não partilharei o historial das 10 personagens que neste momento habitam a história. Um blog não será a casa delas.
Esta que acabou de falar, que contou o que sentia sendo nada mais que o resultado de uma colisão ou um desastre como queiram, foi um embate emocional que no futuro terá consequências para a pessoa amada.
Como tudo na vida há sentimentos que existem porque há algo mais que amar alguém e que viver é o mesmo que sobreviver. Então posso vos dizer que essa personagem não morrerá.
É a personagem mais simples, mais simplória, mais honesta, mais apaixonada, mais realista, mais empenhada em fazer do seu sonho uma realidade…talvez não falará tanto como as restantes, mas quando abrir os olhos na cama de um hospital terá à sua frente a resposta que receava não ser a que iria ouvir.
Como tudo na vida é mais que uma colisão de sentimentos, esta personagem é o equilíbrio emocional, e como gosto de complicar o que já por si é um labirinto, a tal máquina mecânica transformará a sua vida e a da Kitty…
Quando sustenta-se a frivolidade que nos rodeia, o acaso faz-nos pensar. Sentamo-nos num calhau à beira-mar, debaixo de uma macieira, à sombra de uma palmeira ou ao relento com o vento a servir de cantadeiro.
Parar no tempo, ficar na sustentabilidade da perdição que os pensamentos nos dão, é a arma com a qual se pode combater a inércia incessante nas fissuras do nosso coração. É o que faço, porque sinto, porque digo, porque conto, porque ouço, porque reclamo, porque suspiro, porque choro, porque rio, porque gorgolejo, porque visualizo, porque dou, porque recebo tudo o que o mais insignificante a vida me possa oferecer numa bandeja de prata, de ouro, de pedra ou de marfim…sou o tombo que cai, que olha e que divaga porque às vezes é a única solução…
Não há ninguém que saiba o que vai dentro de nós, ninguém é capaz de imaginar a cidade que está a circular nos quarteirões do nosso coração, ninguém sabe que por vezes basta uma palavra para parar o trânsito, que basta um olhar para fazer o sol encontrar-se com a lua, que basta um piscar de olhos para o brilho das estrelas ser o nosso, ninguém sabe que basta um toque para que “ninguém” ser mais que “alguém”.
Quantas vezes uma floresta grita por algo e o silêncio é a sinfonia do vento, o caiar da chuva e o bocejar do granizo? Quantas vezes queremos alguém perto de nós e o que temos é apenas o buraco de uma fechadura. Não nos serve de nada, não é um remendo que se possa coser, um botão que se possa abotoar, uma agulha que espera ansiosamente uma linha.. Às vezes consigo isso, outras é o esquecimento ganhar asas, voa para outros destinos que não o meu…
A minha voz é feita de sons como de qualquer pessoa, é corrosiva quando a fazem trepar as trepadeira que surgem do nada, é ilusória quando tem receios, é figurada quando a figura é mais que a própria realidade, é o acaso a ser mais que uma coincidência, é a porta a fechar-se quando deixo a chave para que alguém a abra…
Sou o tombo que cai, que olha e que divaga porque às vezes è a única solução…
Nota: Esta inspiração surgiu da seguinte frase: "O carácter é como a árvore que tomba na floresta - ninguém sabe, a não ser que a oiça!..." e por não saber quem é o autor, mas por saber quem me deu a conhecer, por ter um significado, por ser daquelas frases que têm mais do que parece e porque há coisas que não se escrevem nem se fala, resolvi pegar nela como se fosse um filho meu, e dar a atenção que é merecida. Não é todos os dias que alguém nos define através de uma frase…porque será que me disseram isso? Eu sei melhor que ninguém…sou o tombo que cai, que olha e que sente, que divaga e que torna a olhar, que sente e desespera por tornar a sentir, porque às vezes além de ser a única solução é a forma que tenho para que alguém me oiça…
Não é normal as pessoas tirarem conclusões precipitadas que só fazem com que se caminhe por um atalho que não as levará até aonde estamos?
Não é que eu tenha caminhado muito para esses lados, mas sei que há quem o faça e não saiba aonde estou.
Fica-se com uma ideia que quem está a falar, quem escreve ou quem ouve nem sempre está sintonizado na mesma “rádio” que nós. Posso dizer que já senti na pele mais que uma vez esse fenómeno! Digo isso porque acredito que não seja um problema de só uma pessoa, ou um problema que esteja isolado em 4 paredes, confinado a uma resolução solitária que acabará num destino fortuito.
Podemos estar enganados em relação a uma determinada coisa, mas é preciso soltar as amarras que nos prendem.
Talvez um dia possa dizer a alguém que sinto a sua falta, e caso seja realmente necessário serei capaz de afirmar que apenas ouço o que quero. Mas no fundo terei que mentir, sei que nem sempre o que aparentamos aos outros é o que somos.
Às vezes é preciso desfragmentar o que sentimos, aí talvez é mais fácil compreender o porquê, as razões, os atalhos que fazem com que sejamos o objecto de análise. Estou consciente disso e portanto…
A realidade é uma selva, é medonha e enganadora. Talvez por isso recorre-se sempre à alternativa de nos empolgarmos quando há razões para isso, e quando se pode ficar no descoro sentimental faz-se! Não por alguém nos querer magoar, mas porque nos magoaram e ninguém tem que passar pelo mesmo.
("Stay" da Lisa Loeb faz parte do meu báu de boas músicas, e essa já tem mais que uma década...o tempo voa...)
As memórias são como uma natureza-morta pintada por dez estudantes de arte diferentes: alguns vão basear-se no azul; outros no vermelho; alguns serão fortes como Picasso e outros sumptuosos como Rembrandt; alguns serão próximos e outros distantes. As recordações estão nos olhos do observador; não há duas que lado a lado sejam exactamente iguais. Jodi Picoult “Memórias Esquecidas”
Se a minha memória pudesse ser uma tela, não me importava que cada um dos 10 estudantes de arte pegasse nela e que criassem algo excepcional. As cores seleccionadas não seriam questionadas, os tons e os efeitos muito menos.
A distância e a proximidade seriam uma meta que eles teriam que chegar lá. Desde que fossem suficientemente fortes para não abandonarem a tela em branco, posso garantir que o resultado final seria 10 memórias distintas: a da infância, a da paixão, a da primeira dor no peito, a da perda, a dos sonhos, a da tristeza, a da nostalgia, a dos amigos, a dos estudos e por fim a da família.
Com cada uma dessas telas teria uma história…as imagens por vezes distorcem a realidade, mas há as que iluminam o que está obscurecido pelas dúvidas, pela amargura, pela tempestuosidade, pelas desilusões e pela agonia.
Há dias assim em que o verão está prestes a chegar ao fim e o Outono está quase a chegar. É como estar a ver alguém a pintar e esperar ansiosamente pelo resultado, que logo à partida estará em branco.
Tenho 10 telas por pintar! Quem se atreve a ser o primeiro estudante de arte?
Como diz a música…com cada batimento do coração não olharei para trás. O problema é esse, mesmo quando não se quer algo, mesmo quando estamos mais que resignados ao que está à nossa espera, a nossa memória é uma tela em branco. Apenas temos que a preencher progressivamente e não de forma abrupta. É preciso olhar vezes sem conta até termos algo que nos fala? Temos mas é que olhar vezes sem conta para essa tela, corrigir os contornos mal feitos com as cores vivas e desbastar o ruído espalhado por alguns centímetros de pano.
A perfeição não é algo que se possa exigir a alguém, não podemos fazer isso a nós próprios.
Por vezes há coisas que se lêem que ficam na nossa memória.
A última foi a seguinte:
Mas o que escondes de mim? A memória dos meus ossos a voarem para as tuas mãos. Anne Sexton, The Surgeon
Um dia terei nas minhas mãos os ossos de alguém, não me interessa se estarão intactos, em cinza ou quebrados, porque a memória é algo tão fugaz quanto as mentiras que se dizem, e as verdades que se oculta.
Agora pergunto o seguinte:
O que é que tens para me contar?
Nada!
Porque será? Será que as minhas mãos estão atadas e só têm direito a serem presenteadas com um fio de corda, velho e mal cheiroso?
Ao menos uma vez na vida a poeira do deserto será mais que isso, e o céu será o mar onde poderei um dia banhar-se e com as nuvens poderei esfregar-me nelas como se uma toalha fossem…quando me perguntarem o que escondo, estarei limpo e aí e minha memória será outra que não ossos, esses até os cães ladram uns com os outros para terem direito a um.
O que vou fazer agora é algo que nunca fiz, pegar num cd e atrever-me a ser um crítico de algo que não é a minha área. Mas por ser um álbum que tem uma história por detrás (as letras dizem-me muito) não resisto e aqui vai…
Após vários anos de ausência por ter (também) ficado desiludida com a “indústria” de música norte-americana e mesmo tendo recebido um Grammy para a melhor revelação algures nos anos 90 e após ter sido mãe e ter-se afastado das lides musicais, em 2007 regressou e posso dizer que é um belo de um regresso. Não irei aqui estar a contar o que a fez voltar e como é que isso foi possível. As palavras que escreverei aqui serão apenas referentes às 11 faixas do álbum que contam uma história e que sem o querer fui levado até Nova Iorque (na minha mais lúcida e consciente imaginação) e por ironia do destino o álbum foi comprado lá. (um aparte…é realmente necessário contar de uma forma breve a viagem que o cd fez…De Nova Iorque foi até S. Miguel e depois veio ter às minhas mãos atravessando o oceano atlântico. Foi com emoção que soube que o álbum tinha sido comprado numa das cidades que mais me fascina…depois de ouvir as músicas fiquei ainda com mais vontade de ir visitar essa cidade que me deslumbra e não sei bem a razão, nunca lá estive!). Se um dia for a Nova Iorque sei que é um dos álbuns ideais para se ouvir num daqueles arranha-céus que por lá andam, e numa noite de chuva a bater nas janelas, estar com um copo de vinho tinto a ver as luzes a cidade tendo como companhia não alguém especial, mas apenas música…há musicas que ganham outra sonoridade ouvidas a sós, canalizam os nossos sentimentos para outra atmosfera (a realidade que não é a que vivemos) e é o que acontece com grande parte das músicas do álbum “Courage” da Paula Cole”)
» 1 - Comin’ Down É a música que abre o álbum. Logo no início ficamos com a sensação que é uma música com sons folk. Os acordes da guitarra e os apelos a Deus são bases que edificam a abertura do álbum. No refrão parece que se quebra algo. Entramos numa sonoridade mais country. De um pedido passa-se para a libertação de alguém que esteve preso a alguma coisa, que não é definida e nem é abstracta. Deixo aqui um excerto da letra que mesmo parecendo que retrata a “queda” de alguém, o que acontece é o oposto.
I’m free here in the mountains of peace may I be, I see the greatness above and the smallness of me. So free, here in garden awake consciously, I see the greatness within; the greatness in me.
» 2 – Lovelight Os acordes iniciais é uma mescla de percussões, depois o piano aparece vindo talvez de um palco escondido algures. A voz dela supera a delicadeza que parece ser o que a música tem para nos dar e no refrão ela diz freneticamente In your eyes I find / You are my lovelight / You are my lovelight…
Mas como há coisas que na vida são esquecidas, ela canta:
I won’t find happiness, looking outside myself. I’ll find my happiness, looking inside myself.
Será que há muitas pessoas a fazerem isso? Penso que sei a resposta, mas não tenho a coragem para a por aqui!
» 3 – El Greco Foi logo uma das músicas que mais me fez apaixonar por este álbum. A letra é magnífica. O piano permanece como a peça fulcral num conjunto de harmonias e a leve bateria saltita suavemente pela música adentro.
Quantas vezes nos identificamos com determinadas coisas que as artes têm para nos dar? Não sei ao certo porque é que isso acontece comigo e neste excerto acontece isso.
So please forgive me all my seriousness, My so-called spirituality, I’m just a mess, I’m tears and anxiety, But I’m unafraid to See.
Já tive esse medo, agora a história é outra como se costuma dizer!
» 4 – Lonelytown Um registo muito peculiar. Talvez é a música que mais foge aos que as restantes músicas transmitem. Tem-se na faixa 4 um registo Jazz (aliás o Jazz está de certa foram impregnado em quase todas as outras músicas) e por ser um tipo de música que raramente ouço, fez-me ser mais uma vez incoerente comigo mesmo, isto porque, o Jazz é das músicas que me deixam inquieto. Não suporto estar não sei quantos minutos a ouvir um som que mexe muito comigo. Um outro sonho que tenho é estar num daqueles bares que se vê muito nos filmes. Estar sentado, não diante de um piano, mas na plateia e desfrutar de algo melodioso que ouvindo através de uma gravação sei que não é a mesma coisa. Portando eu é que me afasto do Jazz não porque não gosto, mas porque ainda não consigo chegar a ele como merece…apreciado do principio ao fim. Portanto “Lonelytown” será a música perfeita para pegar num copo de pé alto, despejar umas longas gostas de vinho tinto e sossegadamente estar diante de uma cidade que não dorme, que ferve de luz, velocidade e de emoções. Um sonho eu sei, mas foi esta música que me abriu novamente as portas para o tal sonho que vive dentro de mim. Para finalizar, toda a letra é visionária…basta imaginarem uma cidade, uma localidade, não interessa…imaginem um lugar onde as pessoas sós acabam todas lá. É mesmo isso que a música conta e para terem uma ideia desfrutem deste fragmento de palavras…
If you’re lucky with a love of your own. Remember this in a nutshell I’ve told: Hold them close and don’t let go. And cherish forevermore. Or you will live in Lonelytown.
Nova Iorque é uma cidade que mesmo tendo todos os dias uma multidão de pessoas, sei que lá o que mais há são pessoas sós, mas esse é um dos males que as grandes cidades têm. Todos os países têm a sua “Lonelytown” e todos nós temos medo de um dia ir lá parar…
» 5 – 14 É o primeiro single do álbum. Li algures que é o que mais faz lembrar os registos anteriores dela. Mas se dissesse isso não estaria a ser honesto. Há uma nesga de verdade nisso, mas o refrão de “14” é o mais veloz de todo o álbum.
But I was 14 with my passion, And 15 with my best. 16 with my ego. And zero with the rest. My heart is a P.O.W tangled in my chest, I don’t know how to communicate in a cardiac arrest.
A música mais uma vez leva-nos para a libertação que a Paula Cole sentiu quando esteve envolvida na construção de um álbum que para mim é muito eclético no seu resultado final, como um todo e não como a soma de 11 músicas.
» 6 – Hard to be Soft Uma das grandes surpresas do álbum. Cantada em parceria com o brasileiro Ivan Lins partilha uma sonoridade que nos leva aos campos sonoros da Bossa-Nova. É impossível não imaginar uma fogueira numa praia e estar nos braços de alguém a dançar apenas com a luz das chamas e o sorriso da lua. E por não acreditar em coincidências, um cheirinho a Jazz está lá camuflado de ritmos mais dançáveis…
» 7 – It’s My Life Os acordes de guitarra continuam a marcar pontos. A voz suave como veludo canta uma das músicas que melhor retratam o que representa este álbum para a Paula Cole. E porque dou valor aos sentimentos, e porque o sentido de vida nem sempre está sob a superfície e por tudo isso por vezes é preciso esgravatar por algo mais real, acabei por pensar na minha vida…
That quiet voice inside of my soul, It’s rising up again. Oh I know it’s the time, life is short. Gotta grab the wheel of my life.
» 8 – Safe In Your Arms Outra das grandes surpresas do álbum. Quem conhece os registos da Paula Cole se lesse que ela tinha uma música com uma sonoridade mais virada para os lados da Jamaica não iria acreditar. Há um reggae muito explícito e com uns toques num piano acho que o som é original. (Quando ela canta…And everybody sings oooh… a sonoridade reggae evapora-se num ápice para voltar segundos após com a companhia de uma harmónica).
» 9 – I Wanna Kiss You O beijo para mim faz parte dos momentos mais espontâneos que se pode ter. A letra é simples, retrata um desejo de se beijar alguém especial. Todos nós o temos! Logo pelo início a batida da música é posta num daqueles carros de fórmula 1 e nunca mais abranda, e a Paula Cole diz que quer beijar, que quer sentir e quem não o quer. O que é que essa música tem de diferente podem questionar, é resposta é simples. Quando menos se espera aparece um trompete que ilumina a estrada que o tal carro de fórmula 1 desenfreadamente percorre até chegar à meta.
» 10 – In Our Dreams Outra surpresa do álbum! Se estão lembrados dos grandes sucessos dos filmes da Disney, esta poderia ser uma dessas músicas, onde os desenhos animados não transpiram só porque não são reais. Fazem parte de imaginação de um grupo de pessoas e como a letra diz:
But then at night when my soul is in flight, And together we meet in the galaxy. Love know no lease, We’re in the meadow of grace and peace. We meet again in our dreams.
Não há muitas pessoas que eu queira voltar a ver em sonhos. A realidade já é bastante despojada de coisas que para mim são demasiado importantes para serem apenas partilhadas em sonhos. Mas como os filmes da Disney têm sempre pelo menos uma mensagem colada a uma história, esta música também o tem.
» 11 – Until I Met You Por fim a música que fecha o álbum. É outra das maravilhas do cd, outra sonoridade com uma carga emocional extremamente audível que a Paula Cole partilha a meias com Paul Buchanan. Faz-me lembrar um musical e penso que isso é evidente. Não consigo explicar os sons que estão lá. Se há uma música deste álbum que me deixou sem palavras é esta. Sinto as palavras a ecoarem paixão e raramente isso acontece comigo.
Esta música faz-me sonhar, faz-me acreditar que há um sentido na vida que estou prestes a descobrir. Quando a ouço, imagens invadem o meu campo de visão, as cortinas do palco abrem-se, o silêncio invade o palco da minha peça de teatro e estou lá perante o púbico que é a vida. Sofregamente estou diante de alguém que não conheço, alguém que me diz tanto e não sei o porquê, alguém que faz a minha pele querer soltar-se do meu corpo, alguém que sorri para mim e diz-me que não preciso da falar, alguém que agita o meu oceano, mesmo sabendo que o seu limite nunca será avistado, alguém que sabe que é possível encontrar o amor mesmo que isso queira dizer que o imaginável afinal não é tão quimérico quanto as palavras que terei neste texto quando acabar de o escrever.
Adoro sonhar e quem me conhece minimamente bem sabe disso. Sonho com os pés bem assentes na terra mas não deixo de ver um fio de luz na mais pequena escuridão, nem ponho de lado a veia que lateja quando o coração sente algo demasiado real para poder dizer a mim mesmo “estou mas é a sonhar”. Esta música é um poço de emoções, na qual estou sempre a mergulhar o balde…
Then our eyes meet cross the room. And I feel like I’m flying outside myself. I can’t catch my breath, I just feel something switch, Can’t explain myself. I thought I was happy, Until I met you.
Ainda não entrei nesse tal quarto, portanto apenas posso sonhar e ninguém poderá tirar isso de mim. … Não é propriamente uma crítica ao álbum, é apenas a visão que ele meu deu. Sempre que o ouço faz as minhas emoções restolhar o que sinto. Não posso deixar de agradecer à pessoa que não se esqueceu do meu pedido. A amizade tem formas especiais de fazer de um gesto simples uma catapulta para letra a letra fazê-las sobrevoar uma enorme porção de mar e terra…OBRIGADO!
...deixo aqui um pequeno excerto de uma entrevista da Paula Cole onde ela fala do seu regresso. Chamo à atenção (de quem ouvir a entrevista do principio ao fim) que no inicio a música é "Comin' Down" e a outra que se segue é "14"!
“Que outras palavras, podíamos quase perguntar, são mais memoráveis e dignas de serem repetidas do que as que o amor inspirou? É espantoso que tivessem chegado a ser pronunciadas. São deveras escassas e raras, mas, como uma melodia, são incessantemente repetidas e entoadas de memória. Todas as outras palavras se desmoronam com o estuque que cobre o coração. Não devemos atrever-nos a repeti-las agora em voz alta. Não somos suficientemente competentes para as ouvirmos a toda a hora.” Henry David Thoreaux, “A Week on the Concord and Merrimack Rivers” 1849
Após ler este pequeno e iluminado excerto, fiquei com uma pergunta a pairar sobre o meu ninho de neurónios. Eles ao saberem desse meu interesse, aclamaram efusivamente à multidão de sentimentos que talvez deveriam soltar as asinhas e colocar a seguinte questão…será que há realmente palavras proibidas?
O amor tem coisa dignas de serem elevadas ao céu, mas não estou apaixonado, nem quero que o amor me faça soltar dos meus lábios palavras que um dia terei que ter a coragem ou o descaramento para as repetir. Há palavras que só se devem ser ditas uma vez na vida, enquanto outras são repetidas infinitamente acabando por perderem o brilho que outrora tiveram.
Há palavras que ficam gastas como a sola dos nossos sapatos, e muitas das vezes começam a romper-se como se um lençol velho se tratasse. Quando se rasga o que é que se pode fazer? O tempo fez deles o seu mártir…o seu destino é o caixote do lixo, porque já foi usado uma série de vezes e uma linha e agulha pouco poderiam fazer por ele. O amor metamorfoseia o banal em algo precioso, deveras intimo e preciso para que seja dado de mão beijada. E hoje em dia é o que se vê mais.
Como diz o pequeno excerto, o nosso coração está protegido de estuque e digo mais, se cada dia que dizemos uma palavra em vão ele perde a sua graciosidade. Talvez quem as diz não sabe o que lhe espera.
Sei que não sou competente para ouvir todos os dias as palavras que o amor pode ter para me dar. Já as esperei ouvir todos os dias e poucas vezes as disse. Por saber o que se passa em redor dos outros, e por saber que a meia-luz já é suficiente para iluminar uma escuridão permanente num coração, não me atrevo a dizê-las, e muito menos a repeti-las. Basta as sentir pois há outras formas de mostrar o que se sente sem as degredar do rol de emoções que devem ser só partilhadas quando o sentimento é realmente suficientemente forte para suportar o peso de duas almas apaixonadas.
Dizer “amo-te” todos os dias a toda a hora torna mais fácil de certas palavras serem incluídas no que chamo de fast-food humana. Não são só as pessoas que estão lá, o que se diz faz parte delas. De forma contígua e anexada há pessoas que deviam calar-se enquanto outras deviam fazer o oposto. Há que separar o saudável do pernicioso e quanto ao que o amor nos dá, temos que saber ser sábios, porque por detrás de um “amo-te” está o que não se diz e isso jamais é dito e repetido. São essas palavras que deveriam ser ditas em voz alta para que todos ouvíssemos.
Para terminar… ”Por vezes, quando não fazemos perguntas, não é por recear-mos que alguém nos diga uma mentira. É por recearmos que nos digam a verdade” Jodi Picoult “Memórias Esquecidas”
Penso que esta frase tem tanto sumo que matei a minha sede e desejei correr uma maratona em Nova Iorque para poder continuar a beber deliciado esse sumo…
…O meu amor não está estagnado como a água de um poço, nem secou como um oásis no deserto do Saara. Não está numa montra de um supermercado nem escondido atrás de uma escultura num museu. Ele está em tudo o que faço, digo e sinto e por vezes quando fecho os olhos sei que ele não me abandonou. E como uma árvore que com o passar dos anos, envelheceu, perdeu folhas, apanhou raios de sol, pingos de chuva e rajadas de vento, ficou mais maduro, astuto e deixou de recear um dia poder dizer certas palavras em voz alta.
O amor para mim consegue ser uma tela em branco, e cada um de nós tem que escolher as cores certas, os pincéis adequados e as tonalidades adequadas para com o brilho do sol consigam ganhar realce. Só assim teremos uma bela árvore…só assim seremos competentes para caminharmos nos trilhos de terra batida, que arduamente foram feitos para se poder dizer um dia em voz alta e sem receios AMO-TE!
Resolvi voltar a ouvir uma música que sempre me fascinou pela sua letra. Mas este excerto é talvez o que me faz agarrar na letra e ver nela o meu EU.
“And it's me who is my enemy.
Me who beats me up.
Me who makes the monsters.
Me who strips my confidence.
And it's me who's too weak,
And it's me who's too shy to ask for the thing I love.
But I love.”
(“Me” de Paula Cole do Álbum já com umas longas barbas).
Não vejo este excerto como algo de depreciativo, é mais uma âncora que faz o meu barco parar quanto um dos remos se parte, ou quando a vela rasgou-se porque o vento foi demasiado severo com ela.
Há alturas que ficam marcadas na nossa vida, os anos passam, mas há momentos ou fases em que o nosso crescimento interior vai ganhando contornos mais carismáticos, mais honestos e sublimes ao mesmo tempo.
Com o avançar da idade a tendência é para evitar cometer os mesmos erros, ou como diz a letra, talvez eu tenha que deixar de ser o meu próprio inimigo.
Sei que grande parte das vezes as nódoas negras que dentro de mim fui eu o causador delas, como também sei que os monstros não existem, só não me posso esquecer que em vez deles há as pessoas…
Sei que é prejudicial dizer que consigo ser fraco enquanto os outros estão numa redoma de vidro à prova de bala, mas será que não tenho um lugar nesse mesmo sítio bucólico?
Ninguém gosta de pedir seja o que for aos outros.
Há quem seja descarado, como há quem não consiga soltar sons da boca.
Consigo ser tímido no que toca a pedir ajuda.
Já o fiz e fui ouvido como já fui ignorado.
Depois de andar anos e anos numa ponte prestes a ruir, (porque não a mantive sob o meu olhar) está na altura de não ter vergonha na cara e começar a ver o que está do outro lado da ponte. Ficar na total escuridão não nos dá nada em troca, e a vida não é um mar de rosas, nem um caule recheado de espinhos prestes a aguçarem os dentes…a vida é uma balança, temos é que a fazer equilibrar
Para mim foi um elogio, mas isso depende da perspectiva de cada um.
Mesmo pela manhã, quando o nosso corpo ainda está adormecido, e quando temos é vontade de voltar para a cama, a minha mente já está numa azáfama danada para conseguir dar conta do fluxo de informação que habita nos circuitos informativos. Aos poucos eles bombeiam o poço da minha imaginação, são mais que meros canais de passagem de pensamentos, ideias ou desejos.
A minha hiperactividade um dia me vai deixar K.O. e eu nunca pus os pés num ringue de boxe… disseram-me que sou mentalmente hiperactivo…
A minha mente talvez seja uma piscina de pensamentos, uns estão parados à espera de poderem dar umas braçadas, outros provavelmente estão numa competição desenfreada para verem quem é que consegue fazer o menos tempo possível e assim ganhar o lugar de destaque para que de um simples pensamento passar a ser algo mais… disseram-me que sou mentalmente hiperactivo…
Os fluxos de ideias, de projectos ou de alegorias e metáforas pensadas sob as brisas do vento fazem parte dos pontos que completam a minha cordilheira de planos inclinados, portas fechadas a sete chaves e de céus banhados com a luz das estrelas com algumas cortinas por serem corridas… disseram-me que sou mentalmente hiperactivo…
(Agora diz-me tu, já viste que a tua peculiar observação levou-me novamente a percorrer os tais caminhos da hiperactividade mental?)
Pois é, nem sempre tenho uma lanterna nas mãos para poder ver no escuro, nem uma luz de presença que me dê para observar a minha sombra nas paredes, mas ao menos me posso gabar que do pequeno faço o grande e do mais recatado pensamento faço um drama/ uma comédia com viragens aonde menos se espera.
Por vezes talvez devesse mesmo desligar-me a mim mesmo, bloquear as ondas de pensamentos que arrebentam dentro da minha cabeça. Talvez devesse ver esses fluxos de ideias como uma neurose sem fim, mas enquanto tiver dedos para escrever, olhos para observar e hiperactividade mental para imaginar, não posso ficar quieto como se fosse uma daquelas estátuas no meio de um jardim que com o passar dos anos vai acumulando as caganitas dos pássaros que por lá andam encavalitados.
Disseram-me que sofria de hiperactividade mental…não faz mal, antes sofrer disso do que sofrer por nada nem por ninguém…sofrer por sofrer, que sofra por ter uma imaginação exageradamente compulsiva, que anda sempre à minha volta, que me persegue, que me fascina e me cultiva todos os dias.