sábado, junho 30, 2007

A Velocidade do tempo!

Assustei-me com a velocidade que o tempo tem e o que consegue fazer.
Por vezes tento não estar embrulhado nos lençóis do que o passado tem para nos dar. Sei que devo dar mais atenção ao presente e estar sempre à espera do melhor que o futuro tem para nos dar.

Tenho receio de uma centena de coisas, mas acredito que por mais rapidez que o tempo tenha, há coisas que não se apagam da memória. Há coisas que ficam, e o pouco que nos possa dizer, é muito.

É imensa a biblioteca do nosso pensamento. Sei que penso demais, que sonho alto, que olho para tudo de uma forma microscópica mas no fundo do meu coração, sei que estou a ser eu mesmo, não preciso de estar escondido atrás de uma árvore e ver o desenrolar da vida dos outros, porque tenho uma noção bem clara que a minha anda a passo de caracol. Não é veloz, nem é estática. Está no parquímetro algures no mundo e anseio que alguém tenha a desfaçatez de me dar uma multa, porque há dias que estar a jogar às escondidas com o que sentimos, com o que queremos dizer, e com o que pretendemos fazer deixa qualquer pessoa K.O.
Não estou K.O. mas nunca se sabe o dia de amanhã.

Há tanta coisa por dizer que me remete sempre ao ponto final. Talvez por vezes seja mesmo necessário estar numa de “Hide and Seek” como diz a música da Imogen Heap. Por vezes basta fechar os olhos e ouvir a voz dela, porque sei que quando os abrir, o tempo de brincar às escondidas acabou.

sábado, junho 23, 2007

Beijo

O beijo…o acto da junção de lábios, o motivo de partilha, a ganância de evasão, a desculpa para se ficar com os olhos fechados, a velocidade de um segundo, o toque do veludo, beijar…

O beijo, a transparência de uma ligação, a corrosibilidade de uma tentativa, a permuta para ir mais longe, a saída mais fácil, o encontro às escondidas, beijar…

O beijo, a mentira humedecida, a revolta amansada, o brilhozinho nos olhos, a palpitação no coração, o aperto na alma, a tristeza afastada, beijar…

O beijo, o mergulho de olhos vendados, o toque das mãos atadas, o som dos ouvidos tapados, o grito dentro de quatro paredes, beijar…

O beijo, o culminar do turbilhão, a rigidez dos sentimentos, a dualidade da velocidade, o tempero da emoção, a destreza do toque, o desvio dos sentidos, beijar…

Deixo aqui o motivo para a inspiração..."Lover's Spit" dos Broken Social Scene e recomendo a versão cantada pela Feist que é mágica.

quinta-feira, junho 21, 2007

Carrancudo eu?

Disseram-me hoje que tenho andado carrancudo.
Não o nego, pois sinto a minha face presa aos meus pensamentos.
Talvez devesse libertar mais as correias que ligam o meu cérebro ao coração.
Talvez devesse vagar mais o espaço que certos problemas ocupam dentro de mim.
Talvez devesse fazer muita coisa e não o faço.
Talvez devesse...usar as reticências obliterantes que me acompanham todos os dias e reforçar a minha máscara de porcelana.
Há que ter cuidado porque sabemos muito bem que nas máscaras, ou elas ficam velhas, esquecidas algures ou simplesmente racham.

Não tenho culpa que na minha face estejam sempre espelhadas as emoções que se apoderam de mim. São rios e não tenho força suficiente para construir barragens para que as águas fiquem estagnadas no seu leito.

Na minha máscara (que venha o primeiro hipócrita dizer-me que não tem uma!!!!) nas fendas que resultaram das rachas, ando a tentar cultivar uma pequena horta, não de legumes e vegetais, mas daquelas hortas que todos olham, passam por elas e não ficam com vontade de comentar seja o que for. Simplesmente nada.
Não levo a mal que digam que a horta está a ficar com uma cor amarelada, ou que há falta de rega (vejam a questão do rio até tem uma certa lógica…) está a dar cabo da vicissitude dela.

O meu sorriso do dia a dia esvanecesse naquelas 4 paredes aonde trabalho. Não tenho culpa e não posso fazer nada para mudar.
Aguentar os rios, não me afogar, encontrar algures uma bóia de salvação e talvez aí quem sabe se vale a pena guardar o sorriso que tenho.

Ninguém me paga para sorrir. Apenas sou fiel ao que sinto e se estou carrancudo a sorte é que não ando à frente com um espelho, porque tenho a certeza que seria o primeiro a perguntar a mim mesmo o que se passa comigo.

domingo, junho 17, 2007

As Pessoas VS "Paris Je T'aime"

Em Março de 2006 durante uns dias andei de volta de um texto sobre nós, as pessoas, e resolvi hoje reler porque ontem vi um filme excelente "Paris Je T'aime" que me deixou a pensar nos acasos da vida, nas nossas histórias, nas alegrias e nas tristezas que a vida nos oferece.
O meu texto é apenas uma análise que fiz a todas as pessoas que estão na minha vida e/ou infelizmente às que já não estão, porque acredito que tudo acontece na vida por alguma razão. Mesmo sem saber ao certo quais são, há momentos que paro no tempo e faço uma “auto-análise”.
Hoje senti uma necessidade de pensar em escrever a continuação dela porque a vida está em constante mutação, e as pessoas servem-se dessa mudança para viverem, por isso há quem nos bata à porta e há quem a feche. Novas alegrias e tristezas são-nos oferecidas todos os dias.

Depois do texto têm o trailer do filme “Paris Je T’aime” que é uma pequena bolha de histórias com actores de várias nacionalidades realizados por homens e mulheres conceituados no mundo do cinema (uns mais que outros)…vale a pena ver as 18 histórias com cerca de 5 minutos cada uma, porque como o tempo é limitado para contar uma história, há momentos belos, e digo belos porque o são!
Há uns anos estive em Paris numas breves horas que para mim fazem parte do baú das lembranças, e depois de ter visto o filme fiquei com vontade de um dia ter a oportunidade de estar em Paris e de completar essas breves horas com uns dias cheios de emoção e descobrir o que ainda não tive oportunidade de o fazer!


...

As pessoas

A nossa vida felizmente não se baseia apenas numa história, na vida de uma só pessoa, não se resume a um gosto musical nem a um prato favorito. Não se resume à roupa que vestimos nem à escova com que lavamos os dentes.
Não se resume ao acender e apagar de uma luz distante nem ao distanciamento que mantemos de quem nos quer ver bem longe.

A nossa vida não se distancia dos caminhos palmilhados pelos pés de quem nos rodeia nem se dissolve no desembaraço atroz de quem vive apenas em redor de si mesmo.

A nossa vida não se baseia num simples jogo de xadrez ou gamão, que basta comer uma peça para o jogo ficar mais interessante e quando já não há mais peças, então o melhor a fazer é jogar outro jogo com outra pessoa...

A nossa vida não se resume a um final sem começo nem a uma página solta de um livro perdido. Não se resume à opacidade que alguns de nós escondem e que vagueia no meio de nós.

A nossa vida não se manifesta num resumo abreviado porque houve alguém que se lembrou de que as abreviaturas tornam tudo mais rápido e menos trabalhoso de se ler.

A nossa vida não se baseia num jantar à luz das velas nem a cartões surpresa, nem se constrói com castelos de areia nem se conforma com o conformismo dos outros.

Não me venham dizer que a nossa vida se resume a um mero encontro de pessoas, a um mero desenlace dramático de ideias partilhadas e vícios esgotados.

Não me venham dizer que as pessoas só vivem a sua história, pois eu não quero viver apenas a minha enquanto existe uma infinidade delas.

Da nossa vida fazem parte as histórias das encruzilhadas que nos apanham a meio do nosso caminho, seja de casa, seja do trabalho, seja à noite ou de dia. Seja o caminho oculto ou o caminho agreste. Desde que cada passo seja dado na direcção que o nosso interior indica, então felizmente que a nossa vida não se baseia apenas numa história.

Na nossa vida infelizmente cruzamo-nos com pérolas gastas de uma sociedade envelhecida em certos aspectos, uma sociedade em que o umbigo de cada um de nós cresce e em certos casos chega até a arrebentar.

Ao longo da nossa vida encontramos as pessoas que valem pelo o que são, as pessoas que valem pelo o que dizem e as pessoas que valem pelo o que fazem mas como tudo na vida há as pessoas que apenas existem, e são essas ultimas que ficam à espera que a história da sua vida acabe.

Mas o pior são quando encontramos AS PESSOAS que não valem nada, não valem o tempo em que falamos com elas, nem o tempo que perdemos a pensar nelas.
Não valem os segundos gastos nem os minutos partilhados, não valem as horas escondidas entre os nós dos nossos dedos, não valem as palavras soletradas sempre que o que queríamos dizer era transfigurado em simples ilusões.
Não valem as sombras dos nossos passos entrelaçados umas nas outras.

Há pessoas que não valem os olhares trocados nem as habilidades coordenadas umas nas outras, não valem os sussurros gritantes nem a turvação climática das nossas emoções, nem valem o picotado da nossa alma...

Há pessoas que fecham a mão quando nunca ninguém lhes tinha pedido algo...

Há pessoas que valem por tudo o que são, por tudo o que nos fazem sentir.
Valem pelos bons momentos, pela boa disposição ou quando estamos mal partilham do mesmo mal e fazem dele um raio de sol sem a sombra de nuvens, um pedaço de um céu imaginado e inventado mas nunca ignorado ou esquecido.

Há pessoas que valem todos os pontos e virgulas da nossa vida, valem por cada pingo de saliva que se gasta quando a língua envolve mais que simples palavras.
Há pessoas que valem os cêntimos que perdemos sempre que a mão os afasta do seu esconderijo.
Há pessoas que valem por tudo o que voa à nossa frente e nos deixa a pensar “porque é que não temos asas”.
Há pessoas que valem por todas as feridas que ajudaram a cicatrizar, e por cada cicatriz temos um momento de reflexão.

Há pessoas que valem cada passo de dança, cada gota de suor abandonado no meio da pista, valem por cada batida do coração, valem pelo ritmo do nosso corpo e pela madrugada que fica à nossa espera!

Há pessoas que nos seguem ao longo da nossa vida e são essas que nos podem dizer se o que se vive é a realidade constante e permanente e não a cegueira enferma que nos corrói de dentro para fora. Essa cegueira descortinada de quem põe o pé na poça cheia de lama e com esse mesmo pé insiste em andar a pé coxinho até que um simples obstáculo o faça parar e divagar no tempo e acabe por ficar só.

Há as pessoas que seguram nas nossas pontas soltas, nos nossos fios de marionetas e com a habilidade de quem já está habituado a fechar o cerco aos mais pensativos, agarram nessas mesmas pontas soltas, nesses fios e enlaçam uns nos outros e o resultado final não podia ser o melhor, um laço sem nó...apenas um laço.

Há pessoas que ficam à espera que o céu um dia desça para poderem ver de mais perto as estrelas, há as pessoas que se julgam donas do seu próprio destino (muito bem que sejam) mas deixem o destino dos outros fluir com o seu próprio ritmo.

Histórias são histórias mas a vida de cada um de nós não se resume a um começo, a um meio e a um fim.
Por mais feliz que seja o começo, as histórias podem ter vários fins, várias alternativas, várias maneiras de evitar o drama ou de alcançar a graciosidade. Podem cegar quem tudo quer ver, mas o pouco que vêem pode significar um mundo.

Há histórias com várias tonalidades de sentimentos e emoções como também há histórias embebidas em mentiras e traições. Não será o perdão que fará de uma história a mais bela canção de amor nem arrancar do mais eloquente coração o manto da inviabilidade, da insegurança e da vaidade.

Serão os nossos olhares veículos de atitudes às infinitas e solitárias alegorias envoltas em luzes de néon?

As pessoas...meros retratos da sociedade, outras espelhos do que desejam ser, outras ilusões reflectidas em nós e por fim aquelas que nos tocam, nos marcam, nos incendeiam e deixam em nós um sentimento, seja ele bom ou mau.

O trailer de "Paris Je T'aime"...

Laura Veirs

Ando a "descobrir" uma nova sonoridade o que está a dar-me um prazer para o qual não consigo encontrar palavras para descrever.
Além da forma despreocupada que a Laura Veirs canta, as letras são tão simples, e os acordes da guitarra minimalistas. Deixo aqui duas músicas dela.


sábado, junho 16, 2007

“Uma vida em mil pedaços”

“Sobrestima o homem e as pessoas tornam-se impotentes. Sobrevaloriza as posses e as pessoas começam a roubar. Esvazia a mente e preenche o teu âmago. Enfraquece a tua ambição e fortalece a tua resolução. Perde tudo o que sabes e tudo o que desejas e ignora aqueles que dizem que sabem. Pratica o não querer, não desejar, não julgar, não fazer, não lutar, não saber. Pratica ser apenas. E tudo se encaixará no devido lugar.”

“As feridas que nunca saram só podemos chorá-las sozinhos.”

Deixo aqui excertos do livro que neste momento ando a folhear. Polémicas à parte, James Frey relata uma história (livro: Uma vida em mil pedaços) com uma velocidade estonteante que neste momento está a deliciar-me.
Não me interessa aonde é que a polémica começa e acaba, mas há momentos na sua escrita, como aqueles que coloco no blog, que são realmente humanos e dizem-me muito.
Por alguma razão voltei atrás e reli, pensei e fiz questão de marcar essas passagens no livro.

Há coisas que nos fazem pensar, e são essas coisas nos livros que me dizem que vale a pena “perder” tempo a ler. Se estivesse a fazer outra coisa, tenho a certeza que iria cair no erro de deixar os minutos fugirem de mim sem os poder dar algum significado…a estes dei, e as palavras dizem tudo!

sexta-feira, junho 15, 2007

Sem Título (é melhor assim)


Tenho muito para dizer, e penso que esta música (Breath Me da SIA) diz tudo e mais alguma coisa.
Neste momento ela é a minha porta-voz e esta é das músicas que mais me toca no limite do meu oceano, seja lá aonde ele estiver...

quinta-feira, junho 14, 2007

Langor

No ar que me circunda, espreitam máscaras, olhos vendados e bocas rasas de laços de ternura.

Por vezes remeto-me às palestras sem público e às oratórias sem temas. Fico-me pela meia-luz de um olhos sem brilho, gastos pelo vapor do tempo.
As reverberadas retóricas dos palcos da vida não passam de meras peças de teatro, mas no meu palco sobrevivem apenas as personagens que me dão luta e as que são capazes de torcer o quebranto e fazer dele a página de uma vida – a minha!


Com mazelas e mágoas, tristezas e ardor somos capazes de abraçar um sonho nem que seja no ar, e no mar à deriva flutua o meu amor. Escondido nas ondas, afagado pelas nuvens, vigiado sem malícia, é este o meu olhar…

Não tenho asas nem o brilho de uma pérola perdida algures no mar, dentro da sua concha. Preservo-me na mudez circundante quando no veludo do céu toco e sei quem eu sou.

Não preciso de pregar ao vento, nem clamar cantigas de escárnio e mal dizer porque sei que há quem o faça por nós.

Gizo e delineio pequenas faúlhas numa fogueira prestes a se apagar, e com as pálpebras semi-nuas, visto-as de uma cegueira, tapando o meu olhar com escamas douradas filtradas pelo ar…
Diz-me langor, como se fosses uma pessoa, porque ondulo eu no ar adentro, sem asas para poder voar?

Languidez

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...


Florbela Espanca

terça-feira, junho 12, 2007

As voltas

Se há voltas que a vida dá, há voltas que gostávamos que fossem mais que desejos, mais que meras quimeras embrulhadas em pequenos pingos de chuva. Mal arrebentam no chão, ficamos com a nódoa de água, prestes a secar porque ninguém se importa com o que fez com que esse pingo de chuva nascesse do abrigo que é esconder-se atrás de um raio de sol porque a lua nunca mais volta.

As voltas e voltas de uma dança solitária são as que dou sempre que esta música fala comigo. Foram inúmeras as vezes que já escrevi a ouvi-la e por isso é uma das pérolas que guardo. São essas pérolas que fazem do que escrevo algo que gosto de reler, porque se não fosse assim, as voltas e voltas que a vida dá não seriam mais que momentos e os bons momentos não são para apenas serem vividos, são para se relembrar…

sexta-feira, junho 08, 2007

Despe-te

Despe a miseria sentimental da lupa da hipocrisia,
Despe essa tua pele de animal
Despe a eloquência sem fundamentos
Despe as metáforas e as suas vaidades
Despe as mentiras e fica com as verdades
Despe a tristeza e abraça os cornos da vida.

Despe o mau fundo
Despe as falácias tagarelas
Despe a farsa que possas ser
Despe dos quadros as nódoas de aguarelas…

Despe das mãos a água suja
E na máscara observa as cicatrizes…

Despe o teu fardo, a dor e o agoiro infiltrado,
Despe as previsões e vive o presente
Esquece o passado e enfrenta o futuro,
Despe o falso amor e diz-me…
…quando essa tua dor for mais pesada que a da tua alma saberás que vale a pena correr o risco de ficarmos com a nossa cabeça nua…

Não é a roupa que faz uma pessoa ser o que é; por isso mesmo apenas me dispo à frente de quem sabe o que é estar nu à frente de alguém e estar vestido dos pés à cabeça.

A nudez do corpo não vale nada comparada à nudez da mente!