quinta-feira, maio 31, 2007

Sombras...

Na minha sombra, enovelam-se os farrapos sensitivos deixados por mim.

Sigo o trilho das memórias desgarradas no ventre da solidão, e da esperança espaçada no tempo, enlameio a correnteza dos rios que abundam no meu coração.

Na minha sombra, o sabor do esquecimento é acre e sopra melodias que nem as gotas do orvalho as conseguem decifrar.

“Mãos à obra” digo a mim mesmo, quando a pressão das correntes farpeadas no meu peito cedem ao escombro do meu pensamento, feito em cinzas como folhas queimadas deitadas ao chão.


Bóiam farrapos de sombra
Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que não sei ser.
E todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, com a minha paz,
A 'sp'rança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.

Fernando Pessoa

quarta-feira, maio 30, 2007

Memória

Amar o perdido
Deixa confundido
Este coração.

Nada pode o olvido
Contra o sem sentido
Apelo do Não.

As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão.

Mas as coisas findas,
Muito mais que lindas,
Essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

A minha memória alveja-me como se fizesse parte de um ficheiro escondido nos recantos de um jardim abandonado, à espera que alguém vá podar as rosas languidamente desoladas porque ninguém as cheira. Falei das rosas, como poderia ter falado das ervas daninhas que gritam desoladamente para que alguém as liberte da dor que é estar a estrangular a vida de quem as rodeia.

A memória, o torvelinho dos Deuses transformado em pó levado pelo vento.
A brandura do pousar de uma não numa face, ardendo por um toque.
O olhar profundo e nostálgico…
...a mágoa de saber que só a memória pode trazer de volta algo que se perdeu…

terça-feira, maio 29, 2007

"Quem me dera que eu fosse o pó da estrada"


Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

Alberto Caeiro

domingo, maio 27, 2007

Gestos & Atitudes



Sigo com prazer a epopeia dos sobreviventes do voo 815 e o fim da Terceira temporada de Lost tem momentos raros.
Deixo aqui duas imagens que falam por si. O Charlie sorri (tenho que dizer que foi uma das melhores e mais comoventes interpretações do Dominic Monaghan) enquanto o Desmond tem no seu olhar uma tristeza, solidária e futurista…
À Historia foram acrescentados uns contornos que nunca pensei que seriam adicionados a uma lista de infindáveis perguntas sem resposta (o que já é hábito).
Não irei desvendar aqui o DETALHE do final, nem estar a querer partilhar o que não se deve pois tudo tem o seu tempo.
Não resisti em partilhar estas duas imagens mas a minha intenção não é esta…

As imagens que coloquei aqui em parte dão-me asas para poder falar de gestos a atitudes, porque nós como seres humanos, estamos constantemente a querer ter uma vida de sonho.

Quantas vezes nos convencemos que o que se fez era o correcto, e que as palavras ditadas a um sol de Inverno acabaram queimadas pelo nosso bafo porque não se pensou antes de ter tal gesto?

Quantas vezes temos uma vontade do tamanho do mundo para confessar os nossos problemas (ninguém é perfeito…) e quando o fazemos sentimo-nos nas nuvens e noutras vezes ficamos com receio que quem nos ouviu acabe por dar um passo para trás quando o que mais precisamos é de seguir em frente?

As atitudes levianas são justificadas por um sonho, mas a vida é a realidade e por vezes não se pode dar espaço a que certos sonhos se infiltrem nos canais enferrujados de um passado sombrio quando os caminhos que nos levam ao futuro estão cravejados de pontos de interrogação. Nessas alturas dou por mim a querer que alguém pegue nessas dúvidas e faça delas o meu presente.

Estou atento aos gestos & atitudes dos outros porque é com eles que estou a construir o que sou hoje.
Mas fico na dúvida (mais uma) se os meus gestos & atitudes têm realmente algum significado para quem me rodeia.

Sinceramente muitas vezes acabo por pensar nisso, imaginando-me ao relento a tentar contar o número máximo de estrelas. Sabemos bem que é um acto sem fim e talvez seja mesmo o meu karma estar numa constante perseguição do sentido da vida.

domingo, maio 20, 2007

Um abraço

Deixo aqui uma cena do último episódio da terceira temporada de “Grey’s Anatomy” que continua a dar-me aquilo que procuro e é raro encontrar num programa de televisão.
A música é da Ingrid Michaelson “Keep Breathing” e aparece tal e qual como podemos ver neste excerto.
Acho a cena memorável. Esta série que está repleta de actos e omissões e a vida real também tem um pouco disso, como também está num “dlim-dlão” das falhas humanas.

A cena final onde a Meredith abraça a Christina é o que mais de diz. Tudo o que mais queria agora era um abraço daqueles…que dá para ocupar o vazio que o coração que ao longo dos tempos deixou que se fosse instalando de armas e bagagens.

Mesmo continuando a respirar, mesmo quando o que eu posso fazer é continuar a respirar num ritmo frenético (sentindo um peso no coração) há alturas que uma pessoa cede a toda a pressão que sente e eu preciso de um abraço daqueles para poder quebrar o gelo que insiste em ocupar o vazio do meu coração…vou continuar a respirar…

quarta-feira, maio 09, 2007

A Viga

Pendurei-me numa viga, à espera do raiar do sol. Mantive-me em contacto com a lua entrelaçando com o meu olhar os seus cabelos de prata e cinza, e com um suspiro disse-lhe para nunca se esquecer do que lhe tinha dito minutos antes…”o teu tempo de brilho tem o mesmo que o de uma lâmpada, a tua sorte é que não és susceptível a quebras, e o teu coração é tão doce como uma amora coberta de açúcar.”

…Desci da viga…

Ao longe já sentia os tentáculos solares a puxarem-me para o seu casulo. Com uma tristeza redentora soprei um adeus à memorável lua como se eu fosse uma vela prestes a perder a chama. Voltei-me para o sol e confessei-me a ele…”não há luz, calor e amor melhor que aquele que não se vê mas que se sente, para o qual se olha e não magoa, que brilha em qualquer altura.
Porque será que a ânsia de se querer ter um fragmento desse elixir para a alma, leva-nos sempre a cruzamentos onde acabamos isolados, ficamos com um céu ausente de estrelas sem a lua a guardá-las como se fossem ovelhas do seu rebanho?”

Não tive resposta…

terça-feira, maio 08, 2007

Rastos

Sobre perder o rasto de alguém… disseram-me hoje como a subtileza de pequenos pedaços de algodão doce a serem embebidos em saliva que perde-se o rasto mas só daqueles que não nos fazem sonhar…sonhar em estar…sonhar em abraçar…sonhar nem que seja numa troca de olhares…perde-se o rasto de quem não mexe connosco…mas nunca se perde o rasto de uma alma gémea ou de alguém que queremos abraçar…



Ao ouvir isso imaginei-me num campo pigmentado de papoilas onde o ópio da sociedade era a droga que todos os dias ao acordarmos temos que enfrentar…a realidade!
Sim vou sonhar…e não o fazer está fora de questão!

domingo, maio 06, 2007

Aqualung – “Pressure Suit”



Esta é uma das músicas que nestes últimos dias tenho mais ouvido.
Há uma parte em que ele diz repetidamente “I can’t stop loving you”…”It’s alright” o que me faz recuar no tempo e recordar as vezes em que o meu anseio de ter alguém a quem dizer “I can’t stop loving you” era uma das coisas que mais queria.
As vezes que esse pensamento vinha ter comigo era como estivesse a seduzir uma ideia, um desejo, uma vontade de estilhaçar o vidro que me impedia de chegar a alguém como a minha sombra me alcança quando o sol brilha mesmo sem eu querer.

Agora já não quero seduzir ninguém, não quero que essa ideia seja tão real quanto o prazer que tenho quando devoro um livro, e o tal vidro que tinha vontade de o estilhaçar rachou.
Afinal o sol tinha um pacto com a lua e com as mudanças de temperatura o acaso fez esse vidro rachar-se e uma coisa que não gosto é ter na vida que remendar seja o que for. Infelizmente esse vidro estilhaçar-se-á sozinho sem a ajuda de ninguém!

Sei que pareço um lamento falante, alguém que está no mesmo sítio porque tem receio de dar um passo seja em que sentido for. Também sei que aceito as coisas como elas são, que desisto facilmente. Não sei o que fazer comigo…

sábado, maio 05, 2007

Certezas

A vida está repleta de certezas, mas as dúvidas assombram o paladar doentio que é mastigar para depois ter-se que engolir a mistura de sentimentos.
Há que deitar para fora o excesso de malícia, e ficar com o que é digno disso.

Há que abrir as portas do desgaste emocional, só assim as certezas deixam de o ser para passarem a ser a realidade.
O que vivemos, o que sentimos e o que amamos é a chave para abrir a porta certa…por lá caminho!

quinta-feira, maio 03, 2007

Trago

Um trago
De mel
e fel
De dor
e mágoa,
Um suspiro
Dentro de um frasco
Comprimindo a ausência da tua presença.

(Craig Armstrong Feat. Elizabeth Fazer - This Love)