Na minha sombra, enovelam-se os farrapos sensitivos deixados por mim.Sigo o trilho das memórias desgarradas no ventre da solidão, e da esperança espaçada no tempo, enlameio a correnteza dos rios que abundam no meu coração.
Na minha sombra, o sabor do esquecimento é acre e sopra melodias que nem as gotas do orvalho as conseguem decifrar.
“Mãos à obra” digo a mim mesmo, quando a pressão das correntes farpeadas no meu peito cedem ao escombro do meu pensamento, feito em cinzas como folhas queimadas deitadas ao chão.

Bóiam farrapos de sombra
Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que não sei ser.
E todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.
O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.
Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, com a minha paz,
A 'sp'rança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.
Fernando Pessoa




