domingo, junho 17, 2007

As Pessoas VS "Paris Je T'aime"

Em Março de 2006 durante uns dias andei de volta de um texto sobre nós, as pessoas, e resolvi hoje reler porque ontem vi um filme excelente "Paris Je T'aime" que me deixou a pensar nos acasos da vida, nas nossas histórias, nas alegrias e nas tristezas que a vida nos oferece.
O meu texto é apenas uma análise que fiz a todas as pessoas que estão na minha vida e/ou infelizmente às que já não estão, porque acredito que tudo acontece na vida por alguma razão. Mesmo sem saber ao certo quais são, há momentos que paro no tempo e faço uma “auto-análise”.
Hoje senti uma necessidade de pensar em escrever a continuação dela porque a vida está em constante mutação, e as pessoas servem-se dessa mudança para viverem, por isso há quem nos bata à porta e há quem a feche. Novas alegrias e tristezas são-nos oferecidas todos os dias.

Depois do texto têm o trailer do filme “Paris Je T’aime” que é uma pequena bolha de histórias com actores de várias nacionalidades realizados por homens e mulheres conceituados no mundo do cinema (uns mais que outros)…vale a pena ver as 18 histórias com cerca de 5 minutos cada uma, porque como o tempo é limitado para contar uma história, há momentos belos, e digo belos porque o são!
Há uns anos estive em Paris numas breves horas que para mim fazem parte do baú das lembranças, e depois de ter visto o filme fiquei com vontade de um dia ter a oportunidade de estar em Paris e de completar essas breves horas com uns dias cheios de emoção e descobrir o que ainda não tive oportunidade de o fazer!


...

As pessoas

A nossa vida felizmente não se baseia apenas numa história, na vida de uma só pessoa, não se resume a um gosto musical nem a um prato favorito. Não se resume à roupa que vestimos nem à escova com que lavamos os dentes.
Não se resume ao acender e apagar de uma luz distante nem ao distanciamento que mantemos de quem nos quer ver bem longe.

A nossa vida não se distancia dos caminhos palmilhados pelos pés de quem nos rodeia nem se dissolve no desembaraço atroz de quem vive apenas em redor de si mesmo.

A nossa vida não se baseia num simples jogo de xadrez ou gamão, que basta comer uma peça para o jogo ficar mais interessante e quando já não há mais peças, então o melhor a fazer é jogar outro jogo com outra pessoa...

A nossa vida não se resume a um final sem começo nem a uma página solta de um livro perdido. Não se resume à opacidade que alguns de nós escondem e que vagueia no meio de nós.

A nossa vida não se manifesta num resumo abreviado porque houve alguém que se lembrou de que as abreviaturas tornam tudo mais rápido e menos trabalhoso de se ler.

A nossa vida não se baseia num jantar à luz das velas nem a cartões surpresa, nem se constrói com castelos de areia nem se conforma com o conformismo dos outros.

Não me venham dizer que a nossa vida se resume a um mero encontro de pessoas, a um mero desenlace dramático de ideias partilhadas e vícios esgotados.

Não me venham dizer que as pessoas só vivem a sua história, pois eu não quero viver apenas a minha enquanto existe uma infinidade delas.

Da nossa vida fazem parte as histórias das encruzilhadas que nos apanham a meio do nosso caminho, seja de casa, seja do trabalho, seja à noite ou de dia. Seja o caminho oculto ou o caminho agreste. Desde que cada passo seja dado na direcção que o nosso interior indica, então felizmente que a nossa vida não se baseia apenas numa história.

Na nossa vida infelizmente cruzamo-nos com pérolas gastas de uma sociedade envelhecida em certos aspectos, uma sociedade em que o umbigo de cada um de nós cresce e em certos casos chega até a arrebentar.

Ao longo da nossa vida encontramos as pessoas que valem pelo o que são, as pessoas que valem pelo o que dizem e as pessoas que valem pelo o que fazem mas como tudo na vida há as pessoas que apenas existem, e são essas ultimas que ficam à espera que a história da sua vida acabe.

Mas o pior são quando encontramos AS PESSOAS que não valem nada, não valem o tempo em que falamos com elas, nem o tempo que perdemos a pensar nelas.
Não valem os segundos gastos nem os minutos partilhados, não valem as horas escondidas entre os nós dos nossos dedos, não valem as palavras soletradas sempre que o que queríamos dizer era transfigurado em simples ilusões.
Não valem as sombras dos nossos passos entrelaçados umas nas outras.

Há pessoas que não valem os olhares trocados nem as habilidades coordenadas umas nas outras, não valem os sussurros gritantes nem a turvação climática das nossas emoções, nem valem o picotado da nossa alma...

Há pessoas que fecham a mão quando nunca ninguém lhes tinha pedido algo...

Há pessoas que valem por tudo o que são, por tudo o que nos fazem sentir.
Valem pelos bons momentos, pela boa disposição ou quando estamos mal partilham do mesmo mal e fazem dele um raio de sol sem a sombra de nuvens, um pedaço de um céu imaginado e inventado mas nunca ignorado ou esquecido.

Há pessoas que valem todos os pontos e virgulas da nossa vida, valem por cada pingo de saliva que se gasta quando a língua envolve mais que simples palavras.
Há pessoas que valem os cêntimos que perdemos sempre que a mão os afasta do seu esconderijo.
Há pessoas que valem por tudo o que voa à nossa frente e nos deixa a pensar “porque é que não temos asas”.
Há pessoas que valem por todas as feridas que ajudaram a cicatrizar, e por cada cicatriz temos um momento de reflexão.

Há pessoas que valem cada passo de dança, cada gota de suor abandonado no meio da pista, valem por cada batida do coração, valem pelo ritmo do nosso corpo e pela madrugada que fica à nossa espera!

Há pessoas que nos seguem ao longo da nossa vida e são essas que nos podem dizer se o que se vive é a realidade constante e permanente e não a cegueira enferma que nos corrói de dentro para fora. Essa cegueira descortinada de quem põe o pé na poça cheia de lama e com esse mesmo pé insiste em andar a pé coxinho até que um simples obstáculo o faça parar e divagar no tempo e acabe por ficar só.

Há as pessoas que seguram nas nossas pontas soltas, nos nossos fios de marionetas e com a habilidade de quem já está habituado a fechar o cerco aos mais pensativos, agarram nessas mesmas pontas soltas, nesses fios e enlaçam uns nos outros e o resultado final não podia ser o melhor, um laço sem nó...apenas um laço.

Há pessoas que ficam à espera que o céu um dia desça para poderem ver de mais perto as estrelas, há as pessoas que se julgam donas do seu próprio destino (muito bem que sejam) mas deixem o destino dos outros fluir com o seu próprio ritmo.

Histórias são histórias mas a vida de cada um de nós não se resume a um começo, a um meio e a um fim.
Por mais feliz que seja o começo, as histórias podem ter vários fins, várias alternativas, várias maneiras de evitar o drama ou de alcançar a graciosidade. Podem cegar quem tudo quer ver, mas o pouco que vêem pode significar um mundo.

Há histórias com várias tonalidades de sentimentos e emoções como também há histórias embebidas em mentiras e traições. Não será o perdão que fará de uma história a mais bela canção de amor nem arrancar do mais eloquente coração o manto da inviabilidade, da insegurança e da vaidade.

Serão os nossos olhares veículos de atitudes às infinitas e solitárias alegorias envoltas em luzes de néon?

As pessoas...meros retratos da sociedade, outras espelhos do que desejam ser, outras ilusões reflectidas em nós e por fim aquelas que nos tocam, nos marcam, nos incendeiam e deixam em nós um sentimento, seja ele bom ou mau.

O trailer de "Paris Je T'aime"...

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